quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

10 anos sem Cássia Eller


Por Junior Bueno

Passados dez anos após a morte de Cássia Eller, em 29 de dezembro de 2001, a música brasileira não encontrou ainda outra cantora que representasse tão bem o papel marginal que a cantora imprimia em seu estilo, voz e repertório. O que se vê nas cantoras de hoje em dia é que falta a veia libertária, criativa, ousada e avoz potente de Cássia Eller. Com uma versatilidade que ia do xote ao blues, dosamba de breque ao blues, Cássia imprimia sua marca nas interpretações que muitas vezes se tornavam definitivas na sua voz.



Apesar de optar por um visual masculino e de seus modos que assustavam as plateias mais “caretas” (beber, cuspir no chão, exibir os seios, coçar os genitais), fora do palco Cássia apresentava tamanha doçura e timidez que era possível acreditar que ao cantar, ela fosse tomada por uma força sobrenatural. No palco, Cássia se transformava, provocava, se entregava às canções e realçava o seu talento.Talento que demorou a ser descoberto, parte pela repressão dos pais, parte pela enorme timidez da cantora que se recusava a soltar a voz em público.



Cássia Rejane Eller nasceu no Rio de Janeiro em 10 de dezembro de 1962. Filha de umsargento do Exército e de uma dona de casa, por conta da profissão do pai,morou em diversas cidades, até chegar a Brasília, aos 18 anos. Descobriu suavocação e dom ainda adolescente, mas só despontou no mundo artístico em 1981, numespetáculo de Oswaldo Montenegro. Depois de anos se dedicando a tocar em baresda capital, foi encorajada por amigos a gravar uma fita demo com Por enquanto, de Renato Russo. A fita chegou às mãos dos chefões da PolyGram, eu na época, final dos anos 80, procuravam uma cantora de talento para lançar, na esteira do sucesso de Marisa Monte. Mais que uma cantora, encontraram uma intérprete com bastante personalidade e versatilidade, e no ano seguinte saiu o primeiro LP, Cássia Eller. Dois anos depois veio O marginal que também caiu nas graças da crítica, mas o sucesso elasó encontrou no terceiro álbum, onde figura o hit Malandragem.





Após alguns lançamentos ao vivo e de estúdio com vendagens irregulares, em 2001, elaalcançou seu auge, se apresentando no que foi considerado o melhor show brasileiro no Rock in Rio daquele ano e emendou com uma turnê de shows por todoo país, além de participação em discos de artistas como Djavan. Mas o que a consagraria como a melhor cantora da sua geração estava por vir. Lançado emabril de 2001, o álbum Acústico MTV foi um fenômeno de vendas e popularizou a cantora, colocando várias músicasentre as mais executadas nas rádios. Com um repertório que unia Edith Piaf, Mutantes, Beatles, Chico Buarque, rap paulista e Nação Zumbi num mesmo balaio,o disco foi considerado o álbum do ano e o canto do cisne de Cássia Eller.



Mas nos momentos finais daquele que havia sido o "Ano Cássia Eller", a cantora sofreu um infarto no miocárdio repentino, aos 39 anos. Houve a hipótese de overdose, uma vez que Cássia tinha um histórico com drogas, mas soube-se depois que ela tinha parado de consumir e estava limpa havia alguns meses. Homossexual assumida,Cássia Eller morava com a funcionária pública Maria Eugênia há 14 anos e asduas criavam juntas Francisco, filho da primeira com o músico Tavinho Fialho que morrera antes de Cássia dar à luz. Numa decisão inédita na justiça a guardade Francisco foi concedida a Maria Eugênia, o que trouxe à tona a discussão sobre a união homossexual no Brasil e ajudou a debater o tema no País.



Cássia se foi no auge da carreira, finalmente reconhecida e consagrada e o cenário musical brasileiro, que de tempos em tempos perde uma grande estrela no auge (Dolores Duran, Maysa, Elis...) ainda não se recuperou dessa perda. Para marcar essa data, a Universal Music anunciou o lançamento da caixa Mundo Completo de Cássia Eller, carinhosamente apelidada de “Caixa Eller”. Uma boa pedida pra quem deseja conhecer melhor a obra da cantora, que está na íntegra no box, incluindo odisco póstumo Dez de dezembro.



Apesar de ser apontada como uma influência para a geração de jovens cantoras que surgem a cada ano, ainda não houve a grande cantora dessa geração. A baiana Pitty, por ser roqueira, e ter uma dose de atitude, foi uma candidata natural ao cargo, porém, mais compositora que cantora, sua rebeldia se diluiu disco após disco. Maria Gadu, pela maneira de cantar e pelo visual “joãozinho” é constantemente comparada à Cássia Eller, mas ainda lhe faltam experiência e atitude para fazer jus à comparação. Ana Carolina, dona de um vozeirão e de um certa ambivalência sexual, carece de uma dose de vitalidade no palco. E se pensarmos em Cláudia Leitte, Wanessa ou Paula Fernandes, é de desanimar. Com sua fúria convertida em música, Cássia escreveu um dos mais belos capítulos da história recente da MPB e sua ausência deixou uma lacuna que ainda resta por ser preenchida. É injusto comparar, mas mais injusto é não existirem mais a voz e o talento de Cássia Eller.

Júnior Bueno

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