quarta-feira, 17 de abril de 2013

O episódio da atriz Cleyde Yáconis na ditadura militar


Por Daniel Miyagi


Cada época tem suas virtudes e qualidades. Mas se houvesse uma máquina do tempo, gostaria de ter vivido e conhecido certos lugares e artistas que não são dessa época. Se pudesse ser o personagem de Woody Allen em Meia-noite em Paris e ter a possibilidade de conhecer os artistas que admiramos, com certeza saberia quem queria conhecer.
 
Outro dia conversava com meu amigo Fabio Dias via e-mail e dizia que queria ter conhecido uma boate antiga, que foi palco para muitos artistas gays.  Mas também queria ter visto mais peças e filmes ou novelas de grandes atrizes, Dina Sfat e Tônia Carrero, por exemplo. Mas graças a Deus tive a sorte de ver uma peca encenada por Tônia, linda, eu não tinha nem completado a maioridade e a vi num espetáculo solo, Esta Valsa e Minha, dirigido por Marcio Aurélio, baseado na biografia de Zelda Fitzgerald. 

Cartaz da peça em que participou com Antônio Abujamra
Outra grande atriz que queria ter assistido o trabalho com mais profundidade, mas também tive a sorte de ver ao menos uma peca, foi Cleyde Yáconis. Ainda na minha adolescência, assisti a peca A Cerimônia do Adeus de Mauro Rasi, fechando uma trilogia autobiográfica. Nesta peca, o personagem Juliano (alter-ego do autor) conversava com nada menos que com os escritores Jean Paul Sartre e sua esposa feminista Simone de Bevoauvoir. Quem interpretou os escritores foram Antônio Abujamra e Cleyde Yáconis.

Irmã do mito Cacilda Becker, teve uma infância sofrida e só aos vinte e poucos anos estreou como atriz, meio que acidentalmente ao substituir outra  atriz  da companhia teatral que fazia parte. E nessa época sua irmã já era conhecida e aplaudida.

A TV teve pouca chance de explorar seu talento. Os papeis mais marcantes na TV foram papeis cômicos que Silvio de Abreu criou muito bem. Mas o que me marcou foram pedaços, via YouTube, que vi da novela O Ninho da Serpente, do grande dramaturgo Jorge Andrade, onde ela fazia a matriarca de uma família paulista burguesa decadente, uma vila, querendo controlar a vida de seus filhos e manter a aparência do nome tradicional da família, manipulando maquiavelicamente conforme suas conveniências. Sentia falta dessa Cleyde dramática na TV. 

Com Imara Reis em "Ninho da Serpente"
Em uma das poucas entrevistas para TV, Cleyde fala quando foi presa pela ditadura militar e a importância de sua irmã nesse episodio:
"Inexplicável. Naquela época fazia o que todo brasileiro consciente fazia.  Assinava relatórios pedindo absolvição de pessoas presas, mas nenhuma atividade política agressiva, não fazia parte de armamentos,  de assaltos a bancos, nada disso, era uma posição intelectual a favor da democracia. Eu terminei o espetáculo, estava com o Stênio (Garcia) que era meu marido naquela época, e tinham uns cinco carros de policia me esperando, me prenderam... -pausa- eu não entendia o porquê, fui recebida por um homem muito agressivo, me fez ameaças. Quando sai do teatro perguntei se meu marido pode me acompanhar ate o DOPS (Departamento de Ordem Política Social)? Mas deixaram o Stênio vir junto até o DOPS, que era perto da Estação da Luz. E disse pra ele "Avisa a  Cacilda!" isso já era por volta da meia-noite. Disseram-me que à uma e meia da madrugada receberam telefonemas do Ademar de Barros (ex-governador de SP), da mulher dele, dos Mesquitas todos, que disseram para o delegado que me recebeu: ”Não toque nessa moca  porque ela é irmã de Cacilda Becker!”. A Cacilda era intocável! A Cacilda quando recebeu o recado levantou São Paulo inteiro... No dia seguinte estava solta, a Cacilda mobilizou São Paulo inteiro porquê não sabia se eu ia ser torturada. Eu não sabia o  porquê de estar sendo presa. Se não fosse a Cacilda não sabia o que podia ter acontecido comigo"
Mas relembrando esse depoimento no momento em que foi presa pela ditadura militar, podemos ver o ser humano que poucos conhecemos e ver como sua irmã foi importante. Pra ela, mais do que o mito Cacilda Becker, era mais importante a irmã Cacilda. Acreditem ou não só depois da maioridade que descobri que Cleyde Yáconis era irmã da Cacilda Becker. Eu já era apaixonado por essa atriz.

Com a irmã Cacilda Becker

Os anos 2010 infelizmente vai ser marcado pela despedida de toda uma geração de artistas brasileiros da mais alta qualidade. Muitos deles, não tiveram a popularidade que a TV proporciona, portanto, são  os privilegiados que tiveram a chance de assistir algum filme ou peca de teatro com esses monstros sagrados (termo chavão clichê, mas é a pura verdade) como Tônia Carrero ou Cleide Yaconis. 

Eu tive essa chance.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pela sua participação e presença! Volte sempre!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...