quarta-feira, 22 de maio de 2013

"O CABIDE FALA" entrevista Vincent Villari, autor de "Sangue Bom"



Vincent Villari quando entrou para teledramaturgia era um adolescente. Aos 16 anos, ele fez a oficina de autores da Globo, o desafio na ocasião foi escrever uma adaptação do poema "Quadrilha" de Carlos Drummond de Andrade. O roteiro agradou tanto que o coordenador do curso, duvidou da autoria e o convidou para uma segunda prova. Em seguida foi convidado para ser colaborador de Maria Adelaide Amaral em "Anjo Mau". Na sequência, repetiram a parceria em "A Muralha", "Os Maias" e "A Casa das Sete Mulheres". Elogiado por sua parceria com Adelaide, Villari entrou para a equipe de João Emanuel Carneiro e colaborou em "Da Cor do Pecado", "Cobras & Lagartos" e "A Favorita". Em 2010 voltou a escrever junto com Adelaide, segundo a autora já era um autor pronto e ela na ocasião passou a responsabilidade para ele de fazer as escaletas do grande sucesso  "Ti Ti Ti" e hoje divide com ela a autoria de Sangue Bom! Confira abaixo a entrevista concedida com exclusividade para "O Cabide Fala", onde ele fala de sua carreira, sobre seus projetos futuros e claro de Sangue Bom.

Lucas Nobre: Como você vê o mercado de autores de telenovelas hoje em relação à época em que você começou a atuar?
É muito diferente. Quando eu decidi escrever para a televisão, no final dos anos 80, as pessoas ao meu redor reagiam com total incredulidade, como se querer ser autor de novelas fosse algo tão absurdo quanto querer ser, sei lá, limpador de caldeiras. Ninguém queria isso, ninguém sabia como era a cara da Ivani Ribeiro, do Walter Negrão. Quando eu entrei na oficina de roteiristas, em 1995, eu era o único que efetivamente queria fazer novelas – o restante estava lá mais movido pela curiosidade, querendo saber como é que era isso de escrever para a televisão. Porém, no final dos anos 90, o salário de parte dos autores disparou, e alguns deles se tornaram celebridades, aparecendo constantemente na mídia. Muitas pessoas passaram a imaginar que ser autor de novelas era sinônimo de ser rico e famoso, e o resultado é que hoje, em cada esquina, há um autor com uma sinopse fantástica debaixo do braço, clamando para ser descoberto. É evidente que há muita gente talentosa por aí que merece e deve ser descoberta, mas mesmo estas pessoas precisam ter consciência de que esta é uma profissão muito dura, que exige muito esforço e muita, mas muita resistência emocional para suportar a pressão e não deixar o stress turvar a criatividade, e este esforço nem sempre é recompensado à altura. Porém, com o crescimento do mercado de trabalho graças aos canais pagos, é bom mesmo que haja mais roteiristas. Até porque, com o crescimento da concorrência, o nível da teledramaturgia só tende a melhorar, o que é bom para quem trabalha na área e quem nos assiste.


Lucas Nobre: Sabemos que existe uma proibição de autores de telenovelas na Globo em ler materiais de terceiros por questões jurídicas. Levando em conta isso, o que você aconselharia um jovem roteirista a fazer para ser visto, lembrado e conquistar o seu espaço até chegar ao seu objetivo de ser um autor titular?
Há muitos autores da TV Globo que dão cursos de roteiros, como o Fausto Galvão, por exemplo. Esta é uma boa forma de tornar o seu trabalho conhecido por pessoas que poderão indicar você mais tarde. Não sei se a TV Globo tem feito oficinas de roteiristas, mas, se fizer, é outra ótima oportunidade – foi assim que eu entrei.



Rodrigo Ferraz: A maioria de seus trabalhos são adaptações de novelas antigas ou livros, como é o processo criativo? Que liberdade você se dá nessas horas?
Quando eu era colaborador, seja de projetos inéditos ou de adaptações, o método era o mesmo: eu procurava raciocinar como o autor para criar os diálogos e conduzir as situações da forma como ele solicitava e necessitava. A liberdade existia dentro deste limite, ou seja, eu tinha de criar algo de acordo com aquele universo específico, e não tirar uma idéia qualquer da cartola. O que foi muito bom, no final das contas, porque integrar universos artísticos que não eram os meus ampliou e enriqueceu muito a minha identidade autoral.


Rodrigo Ferraz: Quais personagens que você escreveu com mais empolgação de sua carreira?
Quando eu era colaborador, o Foguinho (Lázaro Ramos) e a Ellen (Taís Araújo) de Cobras e Lagartos e a Flora (Patrícia Pillar) d’A favorita. Já como autor, a Jaqueline (Claudia Raia) foi um destaque especial de Ti-Ti-Ti e, em Sangue Bom, não saberia citar apenas um, pois sou apaixonado por quase todos os personagens.


Rafael Barbosa: Como é a sua rotina de trabalho com a novela no ar? Quantos capítulos escreve por dia?
Quantos capítulos escrevo por dia??? Meu Deus, se consigo escrever um, já me considero um herói! Dependendo do grau de dificuldade do capítulo, algumas vezes levo um dia e meio, e até dois. A rotina é essa mesmo: trabalhar e trabalhar. Mesmo quando não estou em frente ao computador, estou pensando na novela, então o trabalho é ininterrupto.


Rodrigo Ferraz: Você é contratado a Globo desde muito novo, tem ambições teatrais e no cinema? Ou já fez algo na área que não sabemos e você quer compartilhar conosco?
Eu escrevi um romance, chamado “A Lua e o Aço”, que foi publicado em 2007, e estou lançando um livro de contos de humor, “A que Ponto Chegamos”. Devo lançar este ano também um livro infantil e estou finalizando, em parceria com o jornalista Guilherme Bryan, um livro sobre as trilhas musicais das telenovelas brasileiras desde a década de 60, contendo dezenas de entrevistas com produtores musicais, cantores, compositores e autores de novelas, retratando um panorama cultural muito rico e vasto, e que, em determinados momentos, definiu, para o bem e para o mal, os rumos da música popular brasileira. Este, porém, deve sair apenas ano que vem.


Daniel Miyagi: A internet aproxima as pessoas especialmente nas redes sociais. E nunca a máxima do velho ditado "Em futebol todo brasileiro é especialista de futebol, um comentarista" (ditado que pode ser utilizado a outra paixão nacional, as novelas). O que acha dessa reação das pessoas nas redes sociais em um momento vemos aclamação da novela das sete "Cheias de Charme" e nove "Avenida Brasil" e no momento seguinte um verdadeiro massacre em "Salve Jorge" e "Guerra dos Sexos" ser ignorada? Você acompanha a repercussão de Sangue Bom nas redes sociais?
Eu não participo de nenhuma rede social, mas me mantenho a par da repercussão, sim. Acho que este é um momento de transição muito importante ao qual todos os autores estão, ou deveriam estar, atentos. Antes, um erro, uma inverossimilhança, recebia no máximo um comentário numa revista semanal e não se falava mais nisso. Hoje, a repercussão é imediata e estrondosa a cada detalhe que vai ao ar. O próprio modo de se ver novela mudou: muitos assistem pela internet, depois que o capítulo foi exibido na TV, e os que vêem enquanto a novela está no ar ficam no Twitter, comentando cada cena com outras centenas de pessoas. É um cenário muito desafiador, pois nós, autores, diretores e elenco, somos muito mais cobrados e de forma imediata, mas é um desafio que só vai fazer bem à evolução do gênero, eu acho.
  

Daniel Miyagi: A novela é uma obra aberta. Você é um escritor que prefere ter domínio de tudo e escrever uma obra fechada como seriado ou minissérie ou gosta da interferência da audiência e das críticas nas modificações da sinopse ao longo do seu desenvolvimento no ar?
Se eu preferisse obras fechadas, jamais escreveria novelas. O que eu gosto é justamente disso, ir descobrindo, conforme o decorrer dos capítulos, traços da personalidade dos personagens que eu não conhecia antes. É muito comum eu mesmo me surpreender com gestos, falas ou decisões dos personagens enquanto escrevo. E fico sempre atento, claro, ao que o público está achando, afinal é para ele que eu escrevo. Se for necessário corrigir uma determinada rota, evidente que o farei.
 
Trabalhos que participou
Fábio Dias: Sangue Bom até o capítulo 18 está com média de 25 pontos em São Paulo. Que balanço faz dos capítulos exibidos? Com a novela no ar fica mais fácil escrever? Mudaria algo do que já foi ao ar?
Gosto muito do que foi ao ar e não mudaria nada, realmente. E não é que fique mais fácil escrever: é que ver a novela no ar torna-a mais palpável. É diferente de quando a história existe apenas na sua cabeça. Neste momento, você é senhor absoluto dela. Quando vai ao ar, não mais: todos se apropriam dela, dos diretores e atores que fazem a sua leitura pessoal do texto até o público, que reage à história que está sendo contada, o que eu acho muito estimulante.


Daniel Miyagi: Sangue Bom é aclamada nas redes sociais e por boa parte da crítica. No entanto, existe uma minoria que talvez não tenha pego o espírito da novela, dizendo que ela não tem uma história forte que a torne imperdível, não tem um fio condutor, ou a novela está demorando a se desenvolver, embora tenha cenas ágeis rápidas. O que acha desse argumento?
O fio condutor está muito claro desde o primeiro capítulo: é a história de Bento e Amora, dois jovens que se amam desde crianças, se separaram e, quando se reencontram e percebem que pertencem a universos muito diferentes, um passa a lutar para trazer o outro para o seu mundo. Em torno desta história de amor, retratamos os valores e costumes praticados em cada um desses dois mundos. Discutimos, portanto, a ética das relações contemporâneas, a fome de fama e dinheiro como forma equivocada de compensar carências e de se sobressair às demais pessoas, como se a admiração e a inveja alheias pudessem suprir a necessidade de afeto. É claro que nem todo o mundo deve se interessar por este assunto, mas, se isto não for uma proposta forte, francamente, não sei o que mais seria.


Fábio Dias: Sangue Bom estreou com um número de capítulos indefinidos, em entrevista recente ao site "O Planeta TV" Maria Adelaide disse "Alguns dos acontecimentos que tínhamos previsto na sinopse que já teriam ocorrido nesta altura da confecção dos capítulos ainda nem chegaram perto de acontecer!". Essa indefinição no número de capítulos interfere no ritmo da trama? Já foi definido com quantos capítulos terminará a novela?
Não. Acho que teremos essa definição até agosto. Pode ser que terminemos em novembro, pode ser que tenhamos de ir até janeiro. Tudo vai depender do calendário esportivo do ano que vem.

 


Fábio Dias: Antes de Sangue Bom estrear foi noticiado pela Patricia Kogut do Jornal O Globo que  Amora (Sophie Charllote) e  Bento (Marco Pigossi) se casariam e passariam a lua-de-mel em Berlim, mas parece que houve problema com as locações, depois saiu notas na imprensa que será no Chile. A lua-de-mel ainda acontecerá com gravações fora do país? Eles ainda vão se casar, ou mudou algo na sinopse? 
Segundo a sinopse, Amora e Bento se casam lá no meio da novela, sim, mas, como ainda não escrevemos essas semanas, vai saber, né? Afinal, novela é obra aberta e a sinopse é só um ponto de partida. Em todo caso, se casamento houver, é bem provável que a lua-de-mel seja no Chile. 


Júnior Bueno: Sangue bom é uma novela de musas, grandes atrizes com papeis fundamentais nas tramas. Em Tititi, Jaqueline (Cláudia Raia) teve tanto ou mais destaque que Murilo Benício e Alexandre Borges que eram os protagonistas. As mulheres são dramaturgicamente mais interessante que os homens?
Contrariando a maior parte dos autores, gosto muito de escrever para homens. É claro que as personagens femininas são as que movem a teledramaturgia, porque as mulheres, por natureza, fazem um uso mais freqüente e despudorado de suas emoções do que os homens, e emoção é o que não pode faltar neste gênero. Por outro lado, sou um fascinado pelo lado prático e racional que geralmente é associado ao universo masculino. A Amora, por exemplo, é uma personagem essencialmente masculina, pois o raciocínio dela vem sempre à frente de seus sentimentos. Diferente da Malu, da Giane, do Bento e do Maurício, por exemplo. 

Júnior Bueno: Ultimamente temos visto um esforço das emissoras pra produzir um conteúdo que retrate e contemple a chamada nova classe C. Como autor, você recebe alguma orientação pra atingir essa demanda?
Realmente, não.


Fábio Dias: Seu texto é afiado e de grande potencial para uma novela das sete, onde se pede humor. Tem vontade de escrever para o horário nobre da Globo? Já pensou em alguma sinopse?
Não, não pensei nisso ainda...


Fábio Dias: Essa semana lança o livro "A que ponto chegamos", um livro de contos. Onde buscou inspiração para as histórias? Existe alguma crítica social nele?
Através do humor e do deboche, os sentimentos exagerados e as situações extremadas vividas pelos personagens dos contos funcionam como uma lente de aumento que torna mais nítidos o desamparo, a solidão, a ansiedade, a avidez e as ambições mesquinhas do homem moderno, tão adaptado que está aos valores vigentes que não se dá mais ao trabalho de questioná-los ou refletir sobre eles. a inspiração está ao meu redor, bastou observar.

Convite para o lançamento de seu livro amanhã em São Paulo

JOGO RÁPIDO

Trabalhos favoritos em que participou: Anjo Mau, Da Cor Do Pecado, Cobras E Lagartos, A Favorita, Tititi e agora Sangue Bom
Novelas favoritas que já acompanhou: Fera Radical, Que Rei Sou Eu, Roque Santeiro, Roda De Fogo, Felicidade.
Uma Atriz: Fernanda Montenegro
Um Ator: Tony Ramos
Um Autor: Meus dois mestres: Maria Adelaide Amaral E João Emanuel Carneiro
Um diretor: O meu atual, Dennis Carvalho
Uma grande revelação na teledramaturgia: Recentemente, o Filipe Miguez E A Izabel de Oliveira
Uma cena inesquecível em novelas: Malu Mader, vestida de noiva, fuzilando a própria sogra em Fera Radical
Um crítico (sobre TV): Artur da Távola
Momento Inesquecível em sua vida: para um canceriano, qualquer alfinete caindo é inesquecível, então essa é impossível de responder
Um momento que não gostaria de viver novamente: a adolescência


Bate bola sobre seus trabalhos:

Anjo Mau: um grande aprendizado
Os Maias: uma obra incompreendida
A Muralha: um momento muito feliz
Ti-ti-ti: meu doutorado em teledramaturgia
Sangue Bom: meu filho querido



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