quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A revista feminina em debate.




Duas revistas voltadas para o público feminino recentemente trouxeram à tona uma discussão pertinente sobre o jornalismo feito para mulheres no Brasil. A edição de agosto da revista TPM trouxe na capa uma provocação às demais revistas femininas: todas as chamadas eram falsas e traziam exageros irônicos como “100 maneiras de segurar seu homem” e “Bulimia do bem – a hora certa de botar pra fora”. A intenção, explicada na carta ao leitor feita pelo editor Fernando Luna é promover uma reflexão sobre os porquês das revistas sempre mentirem tanto pras mulheres prometendo fórmulas milagrosas de beleza, moda e relacionamentos. Em outro caso, um blog da revista para adolescentes Capricho trouxe um post assinado por um garoto de 15 anos categorizando as mulheres em “para ficar” e “para namorar”, com declarações machistas sobre o comportamento sexual das mulheres.

A própria TPM foi severamente questionada por, ao mesmo tempo em que critica as outras publicações, não mostrar as diferenças entre mulheres nas reportagens e ensaios. Ainda que traga em sua pauta assuntos que vão além da “receita-para-prender-seu-homem” , a revista peca por raramente dar voz a mulheres negras, pobre ou gordas nas páginas da revista.

Para a jornalista Liz Lemos, uma das autoras do site Blogueiras Feministas, “o jornalismo no Brasil trabalha em cima de estereótipos, e as revistas femininas fazem isso de uma maneira mais perversa. O padrão mostrado nas revistas é de uma mulher que é quase sempre classe média alta, branca e heterossexual.” Assim, a atriz que aparece como uma deusa do sexo na capa da revista Nova é a mesma que aparece numa pose zen e um sorriso sereno na capa da TPM. E em ambos os casos, há muito pouco da realidade das mulheres brasileiras. 



Esta discrepância entre o que é real e o que se publica não é novidade. Nos anos 60 a escritora Clarice Lispector assinava, sob pseudônimo, uma coluna feminina na Revista Mais. Entre dicas de jardinagem e culinária ela escrevias crônicas sobre o universo feminino e dava conselhos amorosos. Nessa época faziam sucesso em outra revista dicas como “A mulher deve procurar não se despir na frente do marido, pois se o fizer com frequência, ele se acostumará com sua nudez e passará a não a valorizar seu corpo”. Curiosamente é a mesma revista que em 2013 prega que uma garota para namorar não deve se vestir de maneira vulgar. Criada em 1952, a Capricho era originalmente voltada para mulheres recém-casadas, interessadas em se tornarem mais prendadas. Só nos anos 80 é que passou a falar com o público adolescente. 

Na ocasião do post sexista que gerou uma onda de reclamações de mulheres de todas as idades, a editoria da revista apenas retirou do ar o texto. Não houve um diálogo aberto com o público-alvo, (adolescentes em idade de autoestima vulnerável) a respeito da autonomia da mulher sobre o próprio corpo. 



Estes casos ilustram como o jornalismo para mulheres está em crise no Brasil. Duas grandes revistas femininas entraram no corte da editora Abril, a Gloss. e a Lola Mag. Segundo Marcela de Sousa, dona de uma banca de revista na Vila Nova (em Goiânia) a venda dessas publicações diminuiu: “Hoje em dia está tudo na internet, as revistas não vendem mais como antigamente.” Ela conta que o público cativo feminino hoje só compra revistas mais populares a preços mais acessíveis. A Sou + eu custa R$ 1,99 e é a preferida da vendedora Sandra Márcia que compra toda semana: “Sempre tem uma dieta na capa e eu vou tentando pra ver se dá certo.” Ela diz que a lê a revista porque “tem muitas notinhas, é mais pra entreter”. 

Se o objetivo dessa e de outras publicações forem apenas entretenimento, talvez elas cumpram o seu papel. Mas o compromisso do jornalista com a informação e, sobretudo a formação da leitora tem sido falho. E é nessa lacuna que talvez os blogs de opinião ajam, na contramão das revistas. É o que acredita Lis Lemos: “Há uma profusão de blogueiras disseminando mensagens de resistência e luta contra o machismo e a opressão, com certeza uma nova geração de mulheres empoderadas por esse conhecimento vai chegar e mudar o jogo”.


*Matéria originalmente produzida para o jornal Samambaia do curso de Jornalismo da FIC/UFG.

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