sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Amora Campana, a personagem inebriante











Depois de um tempo sem escrever sobre TV para qualquer veículo, decidi abrir mão dessa decisão em favor de um assunto que considero vital. Poderia aproveitar este espaço para falar das qualidades técnicas de Sangue Bom, novela que se encerra nesta sexta-feira, mas deixo isso para os diversos críticos que certamente já o fizeram e ainda o farão. Por isso, quero falar de uma experiência pessoal, uma visão única.

As telenovelas brasileiras são produtos quase engessados. A estrutura – de muito sucesso, diga-se, criada normalmente apresenta personagens claros. A mocinha é a personalização do bem e a vilã a personificação do mal. Para um público distraído e um tanto quanto passivo, essa estrutura permite uma clara distinção de quem é bom e de quem é mau. Mas na vida alguém é totalmente bom ou totalmente mau?

Pensando nisso foi que Sangue Bom apresentou uma das personagens mais complexas dos últimos anos. A protagonista Amora Campana vai muito além das caricaturas criadas pelos folhetins brasileiros ao longo dos anos. Com uma trajetória de vida completamente distinta de tudo que se viu, a personagem cercou-se de tal complexidade que tornou-se completamente impossível ficar indiferente a ela.

Não, não vou defender Amora – embora seja fascinado pela personagem e torça para que, em instantes, o último capítulo apresente um final feliz para ela – mas quero apenas apontar o grau de complexidade dessa personagem maravilhosa que foi capaz de reunir uma torcida fanática e apaixonada na mesma proporção que reuniu um grupo forte que a odiava com todas as forças.

Janete Clair já dizia que a telenovela precisa mexer com o público e movimentar seus sentimentos. Amora fez isso enquanto Sangue Bom esteve no ar. A dubiedade dessa personagem fez com que o público a amasse e a odiasse na mesma proporção. Não é difícil encontrar quem se apaixonou por ela, depois a odiou e agora – com sua redenção – voltou a amá-la.


A trajetória de vida da personagem fala por si só. Uma criança que foi abandonada pela irmã – descalça, na rua, sem ter para onde ir – que foi parar num abrigo cheio de amor e conheceu quem pensou ser o homem da sua vida. A menina que foi adotada por uma atriz egocêntrica e que lançou sobre a filha adotiva toda a falta de moral, o desejo pelo dinheiro e a completa falta de ética. A jovem que se tornou a maior it-girl do país e que saciava o vazio causado pela solidão – desde a infância – comprando sapatos, uma forma de amenizar o trauma pelo abandono da irmã durante a infância.

Houve determinado momento da novela em que Amora, conversando com Bento, disse uma dura verdade: “Eu não me arrependo do que fiz porque fiz por amor. Você pode não acreditar, mas foi por amor”. Em outro momento, conversando com sua irmã Simone ela desabafou: “O amor pelo Bento é a única coisa boa que me aconteceu na vida”.

A menina Mayara cresceu e se transformou em Amora Campana, uma jovem sem escrúpulo e que a única lembrança da doce criança era a paixão por Bento.

E como a vida trata de nos ensinar, ela fez isso com Amora. A personagem sequer pode ser chamada de vilã. Todos os seus planos davam tão errado que só ela não enxergava o quão inútil era lutar contra o que parecia óbvio: encarar seus traumas. Enquanto fugiu disso, Amora sofreu e foi se enfiando num mar de mentiras e de infelicidade. Ela conseguiu tudo que queria, dinheiro, fama, sapatos e até casar com o amor de sua vida, mas construiu tudo isso na base de mentiras e não teve sequer um minuto de felicidade.

O abandono da irmã fez com que Mayara, a doce menina, se transformasse em Amora, sem coração. E foi a volta da irmã – agora doente, buscando o perdão – que transformou Amora novamente em Mayara. Analogia assim é muito raro na televisão brasileira e é fantástico que uma novela apresente isso.


As camadas complexas de Amora Campana não fazem dela uma vilã. Muito menos uma mocinha. Amora foi a dona e proprietária de Sangue bom por ser rica e cheia de nuances como poucas vezes se viu. Ela mexeu com as emoções do público. Através dela o telespectador nesses meses sorriu, se encantou, esbravejou, xingou, odiou, chorou. Você pode amar e pode odiar. Você pode torcer pelo final feliz ou pela punição, mas quem assiste Sangue Bom sabe: é impossível ignorar o furacão chamado Amora Campana.

Com o capítulo final indo ao ar em poucos instantes, a grande questão é: Amora ficará sozinha ou ficará com Bento. A esta altura, pouco importa. O que interessa é a lição que a personagem deixa: não adianta se esconder atrás de nossas feridas, não adianta substituir nossos vazios e traumas. É preciso encará-los. O Brasil deveria agradecer Amora Campana por essa lição porque, personagem assim, vai demorar muito para aparecer de novo.



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