segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

POST ESPECIAL: A OBRA MARCANTE DE MANOEL CARLOS

Por Rafael Barbosa 
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Continuando a homenagem ao nosso querido Manoel Carlos, segue a segunda parte do nosso especial sobre sua obra.  Para quem ainda não conferiu a primeira clique aqui



PARTE II

AS HELENAS





“As Helenas são uma imitação de pessoas humanas e verdadeiras, pois essa é minha maneira de ver as novelas. Nem realista ou naturalista como querem alguns. E nem delirantes. Apenas verossímeis. Possíveis.”

Quando se anuncia uma nova novela de Manoel Carlos, imediatamente começam as especulações sobre a atriz que viverá sua Helena e de como será a personagem, quais os dramas e conflitos que ela enfrentará. Para Manoel Carlos, Helena é um nome que representa a figura da mulher forte e decidida, tal qual a Helena de Tróia, de onde veio a inspiração do autor para batizar suas protagonistas.
         De Baila Comigo até Viver a Vida, dá um total de oito Helenas, com muitas coisas em comum, mas também muitas diferenças. Independente de serem mais jovens ou maduras, bonitas ou feias, simples ou elegantes, algo inerente a todas elas é a imensa humanidade e profundidade com que Maneco as desenvolve. Elas não são heroínas idealizadas, e sim mulheres fortes e ao mesmo tempo frágeis e abnegadas, que tem seus defeitos e qualidades, que choram por amor e fazem chorar pelo mesmo motivo, que são mães extremadas e cuidadosas, que lutam pela felicidade dia a dia, que mentem e guardam segredos incomunicáveis, e que erram constantemente na tentativa de acertar, cometendo atitudes  bastante condenáveis. 
        Lílian Lemmertz, Maitê Proença, Regina Duarte, Vera FisherChristiane Torloni e Taís Araújo foram às atrizes escolhidas para dar vida a essas heroínas que povoam o imaginário do público. Tenho predileção pela Helena de Laços de Família, muito bem interpretada por Vera Fischer e dona de uma das histórias mais emocionantes e comoventes que já vi em novelas, a de uma mãe que para não disputar o namorado com a filha abre mão desse amor em nome da felicidade dela, e que depois a salva de uma terrível doença novamente abrindo mão de um amor e engravidando do verdadeiro pai de sua filha, se obrigando a revelar seu maior segredo. As Helenas de Baila Comigo, Felicidade, História de Amor e Por amor também são as mais emblemáticas do time, já as de Mulheres Apaixonadas e Páginas da Vida, embora grandes personagens,  foram perdendo um tanto da força dentro de suas respectivas histórias, dividindo o espaço com outros grandes personagens. A de Taís em Viver á Vida, acabou tornando-se mera decoração na novela, a meu ver não por culpa da atriz (uma de minhas preferidas) que se esforçou ao máximo, e sim do próprio Maneco que estruturou toda a novela em torno do drama vivido pela tetraplégica Luciana (Aline Morais), deixando a Helena da vez de lado, sem uma historia ou drama contundente como as demais, a reduzindo em uma personagem um tanto chata, o que talvez não teria acontecido se Maneco tivesse apostado mais no único drama interessante da personagem, um aborto feito por ela aos 18 anos, assunto espinhoso. Há quem diga que a Raquel vivida por Irene Ravache em Sol de Verão, também tenha sido uma "Helena" de Maneco. Lílian, a primeira das Helenas, foi quem desenvolveu a personagem de maneira brilhante em Baila Comigo, e não fosse seu desempenho magistral, as que vieram depois não existiriam. Agora mais de 30 anos após a Helena de Lílian, que abriu o ciclo da personagem, sua filha Júlia Lemmertz é a atriz que dará vida ao papel eternizado pela mãe, encerrando o legado das Helenas.

SUAS ADORÁVEIS “PESTINHAS”

 


Nunca faço vilã de opereta, mulheres terríveis, pois não acredito que existam"

Outro tipo recorrente nas tramas de Maneco são as adoráveis aprendizes de vilã, ou as famosas “pestinhas” como gosto de vê-las. Costumam ser jovens mimadas, debochadas, ambiciosas, donas de uma língua afiada que adora disparar ofensas e verdades na cara de outras pessoas. Desafiam os pais, atormentam os outros, se acham o máximo e sabem ser divertidas e cruéis na mesma intensidade, sem deixar de possuir a humanidade presente em qualquer personagem de Maneco. Elas sempre guardam uma mágoa, um sentimento de rejeição ou uma frustração que implica em suas atitudes. Mira Maia (Lídia Brondi) em Baila Comigo, Paula (Carolina Ferraz) em História de Amor, Laura (Viviane Pasmanter) em Por amor, Íris (Débora Secco) em Laços de Família, Dóris (Regiane Alves) em Mulheres Apaixonadas, Sandra (Danielle Winits) em Páginas da Vida e Isabel (Adriana Birolli) em Viver a Vida são as adoráveis pestes.

OUTROS PERSONAGENS


  

 

“Reconheço que todos os meus personagens femininos têm um acabamento melhor do que os masculinos”.

Além das Helenas e das “pestinhas”, existem inúmeros outros tipos marcantes criados por Maneco, principalmente os femininos, já que ele se mostra um grande conhecedor da alma da mulher e já declarou saber desenvolve-las melhor. O autor é dono de uma das vilãs que figuram entre as maiores da teledramaturgia brasileira, me refiro à eterna e antológica Branca Letícia de Barros Motta vivida magistralmente por Susana Vieira em Por Amor. Branca era uma mulher elegante, apaixonada por Dry Martine, arrogante, amarga, cruel, preconceituosa, controladora, péssima mãe, a falsidade em pessoa, dona de um amor não correspondido e de tiradas e frases inesquecíveis - Aqui vai uma delas: Eu sou feliz, mas não sou alegre, alegria é coisa de povinho. A mulher chique não ri, no máximo sorri - .Marta de Páginas da Vida, primoroso trabalho de Lília Cabral, também foi uma grande vilã escrita por Maneco. As vilãs do autor, não são mulheres diabolicais e terríveis, mas trazem consigo algumas das piores características negativas que o ser humano pode possuir como a inveja, falsidade, preconceito, amargura e etc. por isso refletem pessoas com as quais infelizmente podemos cruzar ao longo da vida. Os gêmeos João Victor e Quinzinho vividos por Tony Ramos, emocionaram em Baila Comigo. Paulo José viveu de forma magnífica o drama do alcoólatra Orestes em Por Amor e a relação com a filha Sandrinha que foi vivida por uma pequena Cecília Dassi, emocionou. Milena e Nando vividos por Carolina Ferraz e Eduardo Moscóvis formaram um dos casais mais emblemáticos da teledramaturgia. A garota de programa Capitu de Laços de Família vivida por Giovanna Antonelli, também é uma das personagens de Maneco mais lembradas e queridas do público, e que fez um enorme sucesso. Alma Flora Pirajá de Albuquerque, papel inesquecível de Marieta Severo também de Laços de Família, não chegou a ser uma vilã como Branca e Marta, mas tirou o sono da Helena da vez, e foi um dos tipos mais bem construídos por Maneco. A sensibilidade tocante de Tony Ramos ao viver o viúvo Miguel, grande pai e eterno apaixonado por Helena em Laços de Família também emocionou e marcou, um dos melhores tipos masculinos criados por Maneco. Heloísa de Giulia Gam atormentada pelo ciúme doentio que nutria pelo marido, a sofredora professora Raquel de Helena Ranaldi, seu violento companheiro Marcos muito bem interpretado por Dan Stulbach, a alcoólatra Santana de Vera Holtz, a encantadora Salete de Bruna Marquezini, a adultera Sílvia de Natália do Vale são alguns dos grandes personagens de Mulheres Apaixonadas.  Marcos Caruso emocionou na pele de Alex, o pai e Avô herói de Páginas da Vida. Aline Moraes deu um show vivendo o drama da modelo tetraplégica Luciana e formou uma belíssima parceria com Mateus Solano e Lília Cabral em Viver à Vida.

QUERIDINHOS COM QUEM AMA TRABALHAR


  

 “...Sem Manoel Carlos minha vida e carreira seriam outras. É uma pessoa especial, generosa, o grande poeta da minha vida. É uma poesia o que ele escreve, e por isso ele faz tanto sucesso...”
- Lília Cabral sobre Maneco

Todo autor tem atores prediletos com os quais adora trabalhar e com Maneco não seria diferente. Existem alguns rostos sempre presentes em suas novelas, para quem Maneco já escreveu grandes papeis. José Mayer é o eterno galã de suas historias, já namorou quase todas as suas Helenas em um total de seis parcerias. Tony Ramos também é um dos atores mais queridos por Maneco, para quem deu papéis marcantes em cinco novelas. Lília Cabral fez apenas quatro das novelas do autor, mas que podem ser considerados seus melhores trabalhos em televisão. A sintonia entre a atriz e o texto dele é tão forte que quase sempre em que se pensa numa novela de Maneco, o rosto dela é um dos primeiros que surgem em nossa mente, podemos dizer que Lília é a musa de Manoel Carlos. Regina Duarte também é uma das atrizes por quem Maneco tem profunda admiração, afinal foi a única a quem ele entregou sua tradicional Helena por mais de uma vez, foram três das oito Helenas. Entre outras atrizes com quem Maneco mais trabalhou estão: Natália do Vale, Helena Ranaldi e Susana Vieira, que se destacam na obra do autor empatando com Lília Cabral no total de quatro parcerias.  Walderez de Barros, Regiane Alves, Viviane Pasmanter, Elisa Lucinda e Carolina Dieckman estiveram em três novelas de Maneco. A filha do autor, Júlia Almeida e a falecida Marly Bueno empatam com seis atuações em produções escritas por Manoel Carlos, mas o campeão mesmo é o ator Umberto Magnani que atuou em sete de suas obras.

O FUTURO



“...Estou escrevendo como sempre escrevi. Talvez seja correto dar a esse formato o nome de tradicional, mas para mim é apenas o que acredito saber fazer...”

Após uma carreira brilhante, com belas obras marcantes e de grande importância, colecionando mais acertos de que erros, Manoel Carlos promete por fim á seus trabalhos a frente da escrita de uma novela. “em Família” que estréia no próximo dia 03 de fevereiro, é a última novela do autor, com sua última Helena. Minhas expectativas são as melhores e acredito que veremos um Maneco de volta a sua boa e velha forma, apresentando um grande novelão, calcado em conflitos familiares densos, dramas de amor, crises em relações de pais e filhos, sem medo de mergulhar no fictício, com espaço para falar de temas como o Parkinson e entra outras coisas. Acho que não haverá aquela necessidade exagerada de deixar tudo tão parecido com o cotidiano real, que foi o que aconteceu em Páginas da Vida e Viver à Vida, que tinham inclusive depoimentos reais no fim de cada capítulo e personagens comentando fatos reais, onde prevalecia a questão social e a rotina maçante dos personagens em detrimento aos grandes conflitos que interessam e fazem a historia andar pra frente, problemas amplificados pelo ritmo vagaroso. Por falar em ritmo, parece que Maneco também está atento a isso e li em algum lugar que sua trama terá um ritmo bem mais, pontuado. Também confio muito na direção de Jayme Monjardim, que vem de belíssimos trabalhos a frente de A vida da gente, Flor do Caribe e O Tempo e o Vento e acredito que a nova novela tem tudo para ser a melhor parceria entre autor e diretor. Portanto, "em família"  será muito bem vinda!

PRA TERMINAR


Por tudo isso acima é que considero Manoel Carlos meu autor preferido. Sua capacidade de mergulhar fundo na emoção, na dor dos personagens, nos pormenores de cada sentimento e sua habilidade em tirar das pequenas situações, as grandes historias, os grandes conflitos, os melhores diálogos e enfim, tudo isso é algo fascinante para mim. Gosto de me envolver com suas historias, de decifrar seus personagens, de ouvir as trilhas de suas novelas, de estudar o legado de suas Helenas que são sempre inspiradoras. Foi com Maneco que tomei gosto por novelas e se sou o noveleiro que sou hoje devo as grandes emoções de Laços de Família, uma de minhas novelas favoritas, primeira novela que acompanhei do inicio ao fim e que me proporcionou pela primeira vez me envolver com o gênero.  Maneco é valioso para nós, para teledramaturgia nacional, e mesmo que não tenhamos mais suas historias e suas Helenas no horário nobre, que ele volte a nos presentear com outros projetos. De qualquer modo, ficará um vazio enorme na teledramaturgia sem suas novelas únicas. Desejo muito sucesso a ele em sua última empreitada às nove da noite nos próximos meses, que ela faça mais um belíssimo trabalho.

Vem com tudo Manoel Carlos, ou simplesmente Maneco!!!

Manoel Carlos sobre a telenovela:

- Muito presente no dia a dia e de ampla aceitação em todas as classes sociais, econômicas e culturais. Nada se compara a ela, pela diversão que proporciona e – muitas vezes – pela reflexão que provoca sobre temas comuns na esfera humana. Falar para milhões é – afinal de contas – o sonho dourado de qualquer escritor. E o novelista de televisão realiza esse sonho diariamente. 

Fonte: Entrevista de Manoel Carlos concedida ao blog “Eu prefiro melão” em 2012, site www.quemdisse.com.br/frase, Site Teledramaturgia e Site Memória Globo. 

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