segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

#ProntoFalei: Qual é a de Amor à Vida?

                                    
Por Rafael Barbosa

Me faço essa pergunta toda vez que resolvo ver a novela, a qual infelizmente ou felizmente não consigo mais acompanhar, e que nem de longe me lembra a promissora trama que nos foi apresentada no inicio. Pois bem, tentarei responde-la de acordo com minha própria leitura sobre a trama, e já adianto que este é um texto no melhor estilo, como dizia o outro em O astro, #ProntoFaleiToLeve, um sentimento meu em relação a novela e onde não faço a mínima questão de ser ou tentar ser imparcial. Dito isso, lá vamos: 


      Amor à Vida foi aguardada com grandes expectativas, por alçar um bem sucedido Walcyr Carrasco ao horário mais nobre da TV Globo, e pelas promessas de temas polêmicos e ousadias, como o primeiro vilão homossexual. Walcyr chegou com tudo em uma estréia arrasadora, e no decorrer dos capítulos pudemos ver um caldeirão de tramas aparentemente bem amarradas, com uma proposta de narrativa acelerada, personagens populares, uma direção excelente e uma história que prendia a atenção. No entanto, com o passar do gás inicial e o desenrolar natural da história, as pequenas deficiências começaram a aparecer, um texto “mastigadinho” e teatral começou a ficar mais evidente e incomodar, e não tardou muito para os vícios do autor começarem a se alastrar pela trama, comprometendo a credibilidade de uma historia que quer ser levada a sério. Na minha opinião, Amor á Vida desandou de vez após as duas ou três primeiras viradas, mais precisamente após a conclusão da disputa de Bruno e Paloma por Paulinha, grande conflito do casal protagonista, e após o “rombo” na porta do armário de Félix, o que aparentemente esgotou boa parte da sinopse que Walcyr devia ter. Depois disso, parece que a novela passou a atirar para todos os lados, criando diversas situações pra honrar a promessa de uma novela rápida, não importando no quanto isso iria interferir no conjunto geral do enredo.  A novela passou a se sustentar apenas em cima de momentos de impacto, momentos esses que Walcyr sabe desenvolver muito bem, enquanto que a historia mesmo parece ter saído dos trilhos. Conduzir uma novela das nove a base da intuição, pode não funcionar muito bem.


      Amor á vida se transformou numa simplória mistura de tramas,  tons e estilos diversos, sem um que predomine e dê unidade a historia. Tudo é muito exagerado, uma mesma cena consegue ir do dramalhão ao humor pastelão em questão de segundos e de forma abrupta, o que na maioria das vezes tira o brilho de grandes cenas. Penso eu que o problema não está no fato dos dois gêneros dividirem uma mesma cena, há autores que conseguem isso com maestria, o problema está na costumeira falta de sutileza com que isso é feito, sem um equilíbrio entre um tom e outro. Outro ponto negativo é o excesso de temas fortes e importantes tratados com superficialidade, que vão se acumulando sem prestar qualquer serviço bacana e que mais cansam do que qualquer outra coisa. A propósito, que informações nos foram passadas sobre o Linfoma de Hodgkin? O que o autismo abordado através de Linda nos apresentou de relevante além de diagnósticos e de pregar o tempo todo que o autista pode fazer várias coisas como qualquer pessoa? E a falta de sensibilidade e exageros ao retratar a obesidade, colocando uma personagem pra ser ofendida e chamada de “gorda” o tempo todo por meia dúzia do elenco? E a chance de mostrar uma família oriunda de um relacionamento homoafetivo desperdiçada? Enfim, o único tema em que a novela foi muito feliz com sua abordagem, foi à forma escancarada com que retrataram a homossexualidade através de Félix, mostrando todas as questões que rodeiam o assunto de forma nua e crua, e o principal: tratando a homossexualidade como sendo de fato uma condição, independente de escolha. Com certeza muitos se viram refletidos em Félix naquele momento.  O texto, mesmo de forma mais didática possível, pareceu gritar para sociedade inteira ouvir que é preciso abrir a cabeça e ter um novo olhar sobre a questão. 

   
  Há ainda outros problemas em Amor à Vida que costumam acontecer em várias novelas, alguns que inclusive recebem o nome de "rodízio entre núcleos". Cozinhar tramas em fogo brando enquanto outras estão em evidencia é um recurso mais velho que andar para frente em dramaturgia e que é imprescindível para o bom andamento de qualquer história, mas o que essa ideia do tal rodízio guardava de interessante era usar esse recurso com uma narrativa episódica, dando destaque para um acontecimento em algum núcleo durante uma semana, sem que pra isso precisasse deixar os outros núcleos estacionados ou rodando sem sair do lugar, fazendo personagens cansarem ou sumirem e depois reaparecer sem a menor cerimonia, que infelizmente foi o que acabou acontecendo, ainda que o tal rodizio tenha funcionado algumas vezes.
 Outros problemas que me incomodaram bastante, foram os rumos que alguns núcleos foram tomando, como o núcleo de Nicole, que após a decisão de matar a personagem, se desencontrou chegando a enveredar para o espiritismo, até trazer uma espécie de substituta para Nicole, numa tentativa de reconstruir o núcleo voltando a estaca zero. O núcleo de Niko, Eron e Amarylis era outro promissor, que pode até render bons momentos agora, mas que pelo menos para mim, foi mal elaborado no inicio, já que Amarylis ficou obcecada pela criança que ainda nem tinha na barriga. O que a impedia de ter seu próprio filho já que queria tanto um? Alguém acreditou no amor entre ela e Eron? O mau caratismo da personagem como forma de explicar suas atitudes insanas só foi aparecer mais tarde, aliás, a mudança que ocorre nos perfis psicológicos dos personagens é outra problemática de Amor á Vida, a Amarylis e o Eron de agora são os mesmos do início? Quantas personalidades já teve Ninho? A Vega sensata e conselheira virou uma histérica vingativa após a separação, e como entender a cabeça de Thales? O único núcleo que resiste aos solavancos de Amor à Vida e que chama a atenção é o central, que gira em torno dos conflitos que assolam as ruínas da família Khoury e que atualmente tem o vilão/mocinho Félix como protagonista. Ainda que o texto e situações joguem contra, Félix consegue ser um dos únicos bons personagens da novela e é defendido por um extraordinário Mateus Solano. Valdirene lá está para fazer rir e a talentosa Tatá Werneck deita e rola com as palhaçadas da personagem, ignorando sua trama, é um dos poucos atrativos.  O elenco com grandiosos nomes consegue dar dignidade ao texto e a seus personagens, abrilhantando as grandes cenas promovidas pelas inúmeras viradas que a novela tem, os tais momentos de impacto.


      Apesar de tudo, Amor à Vida responde bem quando o assunto é números, não é um fenômeno, mas também não faz feio e entre elogios de uns e uma chuva de críticas de outros, a novela repercute bem, e essa é a minha resposta para pergunta para que fiz no título: Amor a vida quer ser comentada, estar na boca do povo, quer causar, quer fazer sucesso não importando se a qualidade é posta em cheque dia a dia, e de um jeito ou de outro, o objetivo de uma novela é sempre esse. Tenho a impressão que, contrariando o convencional, os acertos de Amor à Vida é que podem ser chamados de acidentes de percurso. Atribuo os bons números aos artifícios fáceis aos quais Walcyr recorre: Surras, barracos homéricos, personagens que agem ao sabor da vontade do publico, situações manjadas, apelações e etc. Além disso, ignorando o conjunto, Walcyr domina perfeitamente bem a arte de estruturar o capítulo, sabe como segurar cenas importantes, criar bons ganchos, movimentar cenas e sequencias, sem falar também no esforço da emissora, que andou investindo nas chamadas e no espaço que a novela tem na programação. Hoje, considero Amor à vida uma novela que pode ser um bom passatempo se  não for levada tão a sério, de modo geral, para mim é uma decepção. Espero ver Walcyr ainda neste horário, mas com uma trama boa de verdade, que deixe sua marca, sua identidade, sei que potencial ele tem de sobra. Ainda assim, me alegra saber que ele não pretende se fixar as 21 hrs e pretende voltar para o horário das 18 e 19 hrs, que ele domina com maestria, e onde já escreveu alguns grandes sucessos. Particularmente, adoro suas comedias das sete e muito me alegra saber que Caras e Bocas, uma de minhas preferidas do horário, logo estará de volta no vale á pena ver de novo. Ufa! Pronto, falei, to leve (risos). 

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