quarta-feira, 2 de abril de 2014

#ENTREVISTA - Fábio Fabrício Fabretti sobre ele e seus Biografados‏


Por Rodrigo Ferraz




O que Caio Fernando Abreu, Gloria Pires, Neusinha Brizola, Isabelita dos Patins, Jussara Calmon e Gretchen têm em comum? Todos tiveram sua vida contada e pesquisada por Fábio Fabrício Fabretti. Ele, que na maioria das vezes escreve acompanhado, como por exemplo com o jornalista Lucas Nobre, com quem lançou recentemente "Neusinha Brizola sem mintchura" (Interface Olympus), e já prepara um novo livro em homenagem a Rainha do bumbum: Gretchen, com Gerson Couto. Na entrevista a seguir conheça mais sobre seu trabalho e suas obras...


1-) Escrever biografias não deixa de ser uma homenagem ao personagem do livro. De todos que você escreveu no formato biográfico são pessoas que sempre quis homenagear?

FFF: Entrar para um projeto é fazer parte dele. Não há como criar algo sem um propósito ou acreditar. E por mais profissional que sejamos, há um envolvimento pessoal que aparece na postura, apresentação e resultado do trabalho. Biografar um pessoa é responsabilidade. Todos têm uma história para contar, mas alguns de destacam por fazer a diferença e mudar algo no mundo. Tenho atração por boas histórias e personagens (reais) de qualquer época, mas confesso que as décadas como 1980 me atraem muito, tanto pela estética, quanto pela ideologia e dado histórico. Foi um período negro mas significativo para o Brasil, que acarretou censura, luta, libertação, anarquismo, revolução. 

 Fábio Fabrício Fabretti com Gloria Pires
2-) Pessoas públicas como a Gloria Pires, Isabelita dos Patins, Jussara Calmon e Neusinha Brizola sempre têm fãs, como eles reagem e te procuram?

FFF: Os fãs servem de base para tudo. Eles fazem e consagram o artista. Diria que é o termômetro deles. muito importantes no processo de elaboração do livro porque contribuem com depoimentos, materiais, divulgação. E são eles que mais adquirem a obra, como uma forma de prestigiar seus ídolos. Gloria é uma das melhores atrizes e mais populares. Durante os lançamentos que fazíamos nas livrarias, percebemos claramente o poder que ela exerce em seus admiradores. Chegava a falta livros nas estantes e os vendedores os tiravam das vitrines. Jussara também estava fora da mídia há um bom tempo mas até hoje tem seu séquito de cinéfilos. A Neusinha também, mas com um mais seletivo público, voltado para o 'cult', a música brasileira e a política. Em qualquer segmento os fãs se destacam e colaboram com o livro, participam dos eventos. Assim como a Gretchen, que mesmo parecendo não ser muito bem "entendida" ou "respeitada" pela nova geração, sem a menor ideia de quem ela foi e tudo o que fez, considerada uma das primeiras e principais representantes da Disco Music no Brasil, dona de uma sensualidade provocante numa época ditatorial, em contrapartida é muito amada, respeitada e reconhecida por quem entende e conhece. E seus eternos fãs-clubes estão ajudando muito no próximo livro. Só temos a agradecê-los.

Gerson Couto, que escreve com ele a biografia da Gretchen.

3-) Pode nos falar um pouco sobre a Jussara Calmon, sua outra polêmica biografada no ano passado?

FFF: Ela me foi apresentada por um editor que queria publicar sua vida, devido a comemoração dos 30 anos do cinema popular brasileiro. Jussara é uma das primeira atrizes a produzir filmes para adultos nas telas nacionais. E se tornou uma musa na época, colecionando centenas de títulos e presenças no cinema, teatro, show e carnaval. Até hoje é destaque das escolas de samba. Sem esquecer que é uma artista completa: representa, canta e dança, além de disciplinada e dedicada. Seu caráter e seu passado foram determinantes para me conquistarem. Gosto de histórias que encantam e não só que contam.Eu e ela  viramos bons amigos. Assim como Layla, filha da Neusinha, que tanto nos ajudou. Fico feliz ao ver Jussara hoje brilhando novamente nas novelas. Ela merece.    

4 -) Escrever em parceria como muitas vezes você escreveu, quais são as maiores vantagens e desvantagens?

FFF: Se um dia me convidaram para um trabalho porque acreditaram em mim, por que não fazer o mesmo com quem também acredito? certa vez um renomado autor de novela me disse que o problema dos novos autores é que tiram os empregos dos mais velhos. Não concordo. Há espaço para todos. E o que cada um conquistou é seu. Parcerias que funcionam bem só vêm a somar. E a divertir. Diversão é fundamental para o trabalho. Fazer arte sem humor deve ser cruel. Quando alguém entra para um algum projeto meu, ou para o de alguém, nunca é por acaso. Tenho a sorte de aprender e dividir com meus parceiros, seja na cumplicidade ou no estranhamento. Trocas são importantes. Pessoas são pessoas e saber conviver é o grande desafio. Mas o interesse em comum é o maior elo.    

Fábio com Jussara Calmon

5-) Já percebeu alguma mentira em algum dos seus livros? Como reagiu, escreveu mesmo assim?

FFF: Como contar a vida de alguém se você não confia na pessoa? Não vejo como "mentira", mas talvez como aquilo que cada um acredita, conforme sua memória, ponto de vista ou interesse. Escrever mentira é para a ficção, que mesmo assim nunca é totalmente irreal. A própria psicanálise diz que temos duas verdades: aquela que realmente aconteceu e aquela que enxergamos. E como biógrafo eu respeito isso. É meu método profissional pesquisar e confirmar tudo o que é revelado, mas sem esquecer que, se a biografia é autorizada, preciso considerar aquilo que o biografado quer contar ou não, mesmo possuindo minha 'participação' indireta. Todo trabalho junto requer negociações e entendimentos mútuos. Costumo brincar que fazer um livro é como um namoro, ter um 'caso' com o biografado. Cada um tem seu começo, meio e fim. E nunca um é igual ao outro. Sem contar que os 'bastidores' de um livro dariam outras obras bem interessantes. E que talvez fiquem para minha autobriografia um dia (risos de brincadeira).

6-) Como foi o processo com a Neusinha?

FFF:  A biografia da Neusinha foi uma experiência atípica. Normalmente prefiro escrever sobre pessoas que estão vivas, porque podem colaborar mais diretamente. No entanto ela faleceu no meio do livro, mas em momento algum a família, principalmente seus filhos, assim como os verdadeiros amigos, nos deixaram na mão. Pelo contrário, acho até que ajudaram mais do que se ela estivesse viva, como uma forma de solidariedade e homenagem. Lucas Nobre também contribuiu muito para a obra e merce todo mérito. Ele resgatou toda infância dela no sul. A cantora e empresária Pollyanna Alves acreditou no livro, enquanto Neusinha se encontrava num momento de ostracismo, e se uniu ao editor João Velloso. Ela me confessou que o alerta contra as drogas, declarado por Neusinha, quanto a intenção de fazer o livro, serviu de despertar para ela que faz uma bela campanha a respeito. Lucas Nobre me acompanhou sem medir esforços e agora acho mais do que justo ele estar na equipe do autor novelista Aguinaldo Silva, como seu pesquisador. O mais engraçado é que, pouco antes de iniciar o livro, consultei a astróloga Simone Beck que me respondeu: 'Faça. Vai dar certo'. E avisou que seria naquele esquema de 'completar as frases'. Neusinha era lúcida mas costumava não terminar as histórias. Tinha muito a dizer e se perdia. E eu e Lucas corríamos atrás, completando e confirmando. Soube depois que Neusinha também havia marcado uma consulta com a astróloga Leiloca, para saber do livro, mas desistiu e mandou a sua filha. Sem saber de nada, Leiloca fez algumas fortes e reais revelações.

Fábio Fabrício Fabretti, os filhos de Neusinha: Paulo César e Layla Brizola, os editores Pollyanna Alves e João Velloso e o outro autor Lucas Nobre.

7-) O que aconteceu realmente entre você e a Rosane Collor, que até o Fantástico anunciou a biografia dela que estava sendo escrita por você?

FFF: Deixamos o Fantástico anunciar o projeto porque completavam 20 anos de Impeachment, no ano passado, e queríamos chamar a atenção das editoras. Hoje acho justo esclarecer que o houve. O advogado dela havia procurado a mim e o outro amigo biógrafo, alegando que ela queria uma biografia. Meu amigo recusou mas o tema me instigou e aceitei. Adoro desafios. Depois a conheci pessoalmente e gostei de Rosane. Acredito em tudo o que ela diz e acho que o Brasil deveria rever alguns conceitos sobre as mulheres que passam anos casadas e servindo aos seus maridos, depois abandonadas sem direito a nada, principalmente se não tiveram filhos, que gerariam pensões. Ela foi uma Primeira Dama, representando a esposa ao lado de um Presidente. Deveriam levar isso mais em conta, independente de terem sido um casal não muto benquisto socialmente. Mas Rosane caiu numa situação atípica porque e separou sem filhos e sem a generosidade do ex-marido. No entanto, fiz o meu papel de profissional e comecei a pesquisar e organizar a obra, enquanto passamos mais de dois anos negociando algum valor para custear meu trabalho. Nunca chegamos a nenhum acordo e nem achei que fui prioridade para ela, como autor ou pessoa. Engraçado vê-la brigando na justiça por seus direitos mas em momento algum parecia olhar para os meus. 

8-) De toda história do mundo, passando por qualquer área, quais seriam as pessoas que você mais gostaria de fazer uma biografia?

FFF: Todos os que escrevi até agora foram desejados por mim, antes ou depois de conhecê-los. Há muitas outras que pretendo investir, de pessoas importantes. Há Soraia Rocha, bi-campeã brasileira de bodyboarder. E outras parcerias futuras, como com o ator Lino Corrêia. Tenho muitos planos e me considero diversificado. A editora também é fundamental na vida de um escritor e sonho que um dia a indústria editorial investirá mais e mais no autor, não só na sua obra. Assim como as empresas que patrocinam peças e filmes. Por que não patrocinar mais livros? Afinal, literatura (também) é arte e cultura. 


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