terça-feira, 22 de abril de 2014

#ProntoFalei sobre o desinteressante desenrolar de Em família. Ainda há esperança para a última novela de Maneco?

Por Rafael Barbosa 


É com uma pontinha de frustração que escrevo este post sobre “Em Família”, nossa atual novela das nove, escrita por meu autor predileto, o querido Manoel Carlos. Semanas antes da estreia, em uma homenagem ao Maneco que pendurei aqui, falei que as expectativas para aquela que promete ser sua última trama para o horário nobre eram as melhores, e realmente eram. Acreditava que Maneco estava de volta a sua melhor forma e disposto a escrever um verdadeiro novelão. Só que Em Família só prometeu e até agora não cumpriu quase nada.
Pelas chamadas se notava que seria uma trama com história, alicerçada no cotidiano como de costume - estilo esse cujo texto acaba se sobrepondo a ação - mas que giraria em torno de grandes histórias de amor, dramas familiares fortes, paixões, ciúmes, rivalidade e tragédia. Diferente de Páginas da Vida e Viver à Vida, trabalhos mais fracos do autor, que muitas vezes se sustentaram em cima de campanhas sociais e que na maior parte do tempo se mostraram mais um documentário sobre o dia a dia de pessoas comuns vivendo suas vidas, do que uma novela propriamente. Em ambas faltaram àquelas viradas folhetinescas, os grandes acontecimentos que tanto causam comoção, faltou tensão, energia, momentos vibrantes, enfim, faltou muito daquilo que a palavra novela agrega. Passados três meses da estréia de Em Família, é nítido que os mesmos equívocos cometidos antes por Maneco, persistem.


O mais frustrante é lembrar que a novela começou muito bem. A ideia de começar a contar história lá atrás, se valendo de um prólogo, passeando pela personalidade de seus personagens e construindo os conflitos minuciosamente, quase que pintando a história, foi um grande acerto. A segunda fase de Em Família foi um primor, independente de falhas técnicas, furos e as tão comentadas idades de atrizes e suas personagens. Esteve lá o texto rico e delicioso de Manoel Carlos, seus personagens humaníssimos e muito bem delineados, sua poesia e lirismo, suas irresistíveis crônicas e uma Helena jovem atrevida e sedutora, a mais interessante desde muito tempo. Muitas das melhores cenas promovidas pela trama até agora, são desta segunda fase.
Particularmente, olhando a novela agora, noto uma trama com um ótimo texto e personagens riquíssimos , com as crônicas sempre eficientes de Maneco, mas isso não basta para sustentar a novela. Falta uma trama consistente, que tenha um caminho a percorrer, com grandes conflitos que prendam a nossa atenção e nos faça querer acompanhar diariamente, pois uma novela não existe sem uma boa historia, e uma historia não existe sem bons conflitos. O ritmo lentíssimo é um agravante, ainda mais nos dias de hoje, mas acho que não se pode apontá-lo como o maior problema, pois o ritmo de uma novela de Maneco é lento desde sempre. Se ele incomoda hoje, é porque a historia se mostra bastante frágil, bem menos interessante que a obra anterior do autor, e quanto maior é o problema na historia, naturalmente a necessidade de acelerar as coisas também aumenta, daí a falta de harmonia entre ritmo e trama. Em minha opinião, a direção de Monjardim, que vem de ótimos trabalhos recentes, pouco tem contribuído para amenizar essas deficiências da trama, pelo contrario, tem tornado ainda mais monótona e cansativa. Talvez falte uma direção mais enérgica, mais dinâmica e um pouco mais eletrizante em algumas cenas de briga e confrontos, por exemplo. Até mesmo aquele charme inerente a toda novela "Manequiana" se faz ausente em “Em Família” que tem mais cara de novela de Elisabeth Jhin, em alguns momentos (risos). 

Apesar de tudo, vejo que Em Família parece ter potencial para uma boa novela, haja vista os conflitos possíveis entre Helena e sua filha devido a essa confusão de sentimentos de Laerte, que mistura uma com a outra, confundindo passado e presente, assim como os que podem ocorrer devido sua rivalidade com Virgílio, um possível romance entre seu filho e Luíza, a obsessão de Shirley e entre outras situações que seriam possíveis. Tramas paralelas também apresentam potencial, como o triangulo Clara-Marina-Cadu, o drama de Neidinha que vive a sombra do estupro que sofreu no passado e a obsessão de Juliana pela pequena Bia. Ou seja, a novela tem possibilidades que ainda não foram exploradas, tem muitos caminhos possíveis, mas o desenvolvimento insosso a impede de acontecer e ainda prejudica a construção de bons personagens. Parece que estamos vendo apenas um ensaio interminável para acontecimentos futuros que nunca acontecem.
Sinto falta de um Manoel Carlos mais disposto a arriscar e a testar suas tramas e personagens de todas as maneiras, disposto a levar os conflitos as últimas conseqüências, que não tem medo de utilizar os recursos mais batidos, mas que funcionam e são indispensáveis, mesmo em seu universo realista. Ele tem desperdiçando inclusive os ganchos, que são o recurso chave pra prender a atenção do público. Sinto falta do Maneco que provocava emoções fortes, que escrevia os barracos homéricos entre Branca e a filha em Por Amor, que torturava suas Helenas ao fazê-las esconder um segredo terrível, que escrevia com maestria as cenas de briga entre Iris e Camila em Laços de Família ou as loucuras da ciumenta Heloísa em Mulheres apaixonadas, dentre outros bons momentos em sua obra. Em Família, por enquanto é amparada apenas por grandes atuações, bons personagens e claro, o texto de Manoel Carlos que é sempre o grande protagonista de qualquer novela sua, e é sempre muito bom apreciá-lo, ainda mais em tempos em que ação é mais valorizada. São esses elementos que proporcionam ainda algumas ótimas cenas dentro de uma novela tão monótona e que me dão a esperança de que aquele velho Maneco ira ressurgir e acertar as coisas. 


A audiência e repercussão quase nula refletem esses equívocos todos que Em Família apresenta, fazendo a novela caminhar rumo ao maior fracasso do horário. Para um fã da obra de Manoel Carlos, ver isso acontecer em sua última novela, em que se pretende encerrar um ciclo que tantas vezes proporcionou ótimos momentos, é bem frustrante. Mas não perco a esperança, e ainda acredito que a novela há de se recuperar e se tornar ao menos mais assistível. Autor e emissora já atentaram para os problemas enfrentados pela novela e parecem estar correndo atrás do prejuízo. Não por acaso tenho achado os últimos bem melhores dos que os das semanas anteriores. Sou suspeito, mas tenho notado uma melhora sutil no desenrolar de um capítulo, com cenas menos longas e cortes mais rápidos, e uma leve movimentação nas historias, que andam tendo bons acontecimentos. Ex: Á descoberta de Alice sobre o passado da mãe, o início do romance de Luíza e Laerte, os embates entre Jairo e Nando, a angustia de Juliana com a corda no pescoço devido a seu casamento impensado, e claro, o núcleo Clara, Marina e Cadu, que andou promoveu ótimos momentos nós últimos dias. 

  
Enfim, por todo meu amor por Maneco, ainda acredito na luz no fim do túnel e torço para que a novela se encontre. Até lá, com toda paciência, vou saboreando o que a novela oferece de bom, pois por mais defeitos que tenha, nunca que vou classificar  uma novela de Manoel Carlos como ruim - se é que se pode classificar alguma novela como tal, tendo em vista tantas opiniões e gostos diferentes -, há qualidades que o acompanham sempre, e isso não ignoro e nem abro mão. Oremos!

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