segunda-feira, 25 de agosto de 2014

#ENTREVISTA - Alcides Nogueira e Vitor de Oliveira, quando a parceria entre autor e colaborador dá certo


Por Equipe O Cabide Fala


Ledo engano quem diz que o trabalho de um escritor é algo fácil. É um trabalho sacrificante, angustiante e solitário. Quando sua obra está pronta para ser vista pelo público, o escritor nunca sabe se ela será aceita, compreendida e elogiada. O que dirá então, quando se trata de um texto de ficção, uma história imaginada, de mentira, mas que tem ter uma força tamanha, a ponto de todas aquelas mentiras passarem verdade para o publico, a ponto dele se identificar, se emocionar e de refletir com aquele texto.
Quando esse escritor é um dramaturgo roteirista e escreve tanto para a televisão, como para o teatro suas dificuldades e desafios são maiores, pois a TV é um veículo de massa, atinge dezenas de milhões de pessoas, das mais variadas classes sociais. E o teatro, embora seja para um público limitado, o contato é direto. É no teatro que muitos dos talentosos veteranos e talentosos novelistas da televisão ousam mais nos seus textos, deixando sua marca autoral.
Novela é um produto industrial, e hoje, o autor necessita de uma equipe de colaboradores, (Gloria Perez deve ser a única que faz questão de escrever sozinha) para essa empreitada árdua e cansativa, pois o tempo médio de uma novela, da pré-produção até o último capitulo exibido geralmente é um ano consumindo a vida de toda a equipe.
Se um novelista (como todo escritor) é um bicho egocêntrico, cheio de idiossincrasia, imagina uma equipe de escritores, ou seja, o novelista titular mais os colaboradores! Por isso, é importante uma boa interação entre titular e colaborador.
Hoje em dia,   as atuais novelas da Globo estão sofrendo queda de audiência, concomitantemente aparecendo novelas com propostas inovadoras, agradando a crítica, mas a audiência não corresponde. Outras estão incorporando a linguagem dos seriados americanos, com cenas rápidas vídeo clipe, ganchos fortes, e as chamadas viradas, que faz o público se surpreender. 
Alcides Nogueira e Vitor de Oliveira são um exemplo da bela parceria entre autor titular e colaborador.
Alcides formou-se em Direito na USP em 1974, escreveu sua primeira peça em 1977, chamada A Farsa da Noiva Bombardeada, o que lhe rendeu problemas com a censura. Lua de Cetim, de 1981 foi seu primeiro sucesso, mas o grande estouro teatral que até hoje muitos lembram dele é a adaptação do livro Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva. No ano seguinte, sua peça Lembrancas da China teve grande repercussão com a critica especializada. Na TV, seus primeiros trabalhos foram textos para o antigo programa Caso Verdade e em 1984, foi sua estreia nas novelas, como colaborador de Walter Negrão, em Livre Para Voar.
Pra quem não lembra, Alcides já participou do blog, no profile.
Vitor de Oliveira, antes de entrar nesse mercado concorrido de roteiristas, já foi funcionário publico, deu aulas numa faculdade de Letras e em 2010, foi um dos selecionados para participar da Oficina de Autores da Rede Globo. Ele conta que as coisas só começaram a acontecer depois de ter participado de roteiro de seriados, ministrado pelo roteirista Max Mallmam, da equipe de A Grande Família. Vitor também é autor do blog Eu Prefiro Melao, que fala de teledramaturgia. O blog fez tanto sucesso que em 2012 ele lançou um livro com o mesmo nome, com coletâneas dos textos publicados no blog. Também já ministrou cursos de roteiro ao lado da autora Ingrid Zaverazzi. Vitor já é conhecido do Cabide, tanto que ele têm um profile e um POST VIP aqui.
Alcides, junto com Geraldo Carneiro, escreveu em 2011 o remake de O Astro, do original de Janete Clair, inaugurando o horário das onze, com colaboração de Tarcísio Lara Puiait e Vitor de Oliveira. Fazer uma releitura de uma obra de Janete Clair é uma tarefa árdua, pois até então, nenhum remake da “maga dos sonhos e fantasias” que fazia o publico delirar, fez o sucesso merecido seja na critica ou na audiência. Mas O Astro quebrou esse tabu, foi unanimidade de crítica e público, no ano seguinte, obteve a façanha de ganhar o premio Emmy Internacional de melhor novela.
Em 2015 Alcides Nogueira estará de volta no ar com mais uma novela, dessa vez na faixa das 19 horas, escrevendo ao lado de Mario Teixeira, e seus colaboradores serão Tarcísio Lara Puiait, Jackie Vellego, Paulo Lins e Vitor de Oliveira..
O blog escalou Fábio Dias, Rafael Barbosa e Rodrigo Ferraz para entrevistar Alcides Nogueira e Vitor de Oliveira, perguntando sobre o ofício de escrever e o começo de um roteirista, a importância do teatro, a discussão qualidade versus audiência, e lógico, detalhes sobre a novela Lady Marizete.
LADY MARIZETE

Fábio Dias: Lady Marizete é sua primeira novela como autor titular no horário das sete. Como está sendo a experiência e o que a trama terá de diferente das demais? Lady Marizete já é o título definitivo?
Alcides Nogueira: Escrever para qualquer horário é sempre um desafio. O bom é que se trata de uma criação do Mario Teixeira e minha, escudada por uma equipe maravilhosa, com Jackie Vellego, Paulo Lins, Tarcísio Lara Puiati e Vitor de Oliveira. Buscamos resgatar os aspectos humanos, as relações fraternas, que quase sempre servem de pano nas produções do horário. Neste caso, serão prioridade. Lady Marizete ainda não é o título definitivo, embora esteja registrado. Todos nós torcemos para que seja.


Rodrigo Ferraz: É verdade que o cenário do núcleo da família da Helena (Natalia do Vale em a Próxima Vítima) inspirou a trama de Lady Marizete? O que conta a trama principal? E quais paralelas vocês já podem adiantar?
Alcides Nogueira: Não, não é verdade. Houve apenas uma coincidência. O prédio onde morava a Helena, em Próxima Vítima, fica exatamente na divisa entre Paraisópolis e Morumbi. Há uma foto do Tuca Vieira, que se transformou em um ícone, mostrando isso. Quanto às paralelas, só posso dizer que são histórias mostrando os dois lados: o que acontece na comunidade e no Morumbi. E a interação entre os dois universos.

Fabio Dias: Anteriormente foi divulgado uma sinopse de uma novela sua chamada “Para Sempre” que contava a história de um homem imortal que se apaixonava por uma jovem comum. Essa sinopse realmente existiu? Se sim, por que a ideia foi abortada?
Alcides Nogueira: Sim, existiu. Era uma sinopse também em parceria com Mario Teixeira. Ele e eu não temos a menor ideia dos motivos pelos quais foi descartada. Talvez não cumprisse os interesses da emissora na época. Mas Mario e eu continuamos gostando muito da trama, e não descartamos a possibilidade de ser retrabalhada e reapresentada. Depois... porque agora todas as nossas energias estão voltadas para a Lady.

Fábio Dias: Como se deu a escolha para Tata Werneck viver a protagonista? Foi divulgado também que Max Fercondini será seu par romântico e Caio Castro um vilão. Pode adiantar alguém mais do elenco?
Alcides Nogueira: Tatá é uma atriz excelente... e sua escolha foi uma unanimidade. Tem tudo a ver com a personagem. Assim como temos certeza de que o Caio Castro fará um vilão poderoso. Quanto ao Max (de quem todos nós gostamos muito), ele ainda não foi confirmado. Mas é assim mesmo: escalar uma novela é montar um quebra-cabeça. Não pesa somente o talento dos atores, mas também a temperatura ideal entre eles. Estamos muito no começo desse processo.

Rafael Barbosa: Vimos pelas chamadas que a responsabilidade dos autores a frente da atual Geração Brasil, ganhou um certo peso a mais devido ao sucesso de Cheias de Charme. E para vocês que fizeram sucesso com O astro, que receberam um Emmy, sentem que responsabilidade a frente desse novo trabalho é maior? Se sentem mais cobrados e se cobram mais por isso? Ou sentem-se mais relaxados? De que maneira o sucesso anterior reflete num novo trabalho?
Alcides Nogueira: Todo novo trabalho requer responsabilidade. Não acredito na “transfusão” nem de sucesso nem de percalços. O telespectador é muito inteligente. Ele segue ou não uma história direcionado por seus próprios princípios, por sua livre escolha. É dessa forma que acontece a fidelização.



O COMEÇO DE UM ROTEIRISTA

Fábio Dias: Vitor como foi a experiência de ministrar cursos de roteiro? Como surgiu a parceria com a Ingrid Zavarezzi?
Vitor de Oliveira: A experiência tem sido muito gratificante. Ingrid e eu somos parceiros em alguns projetos, somos diferentes e complementares. Quando surgiu a ideia de criarmos um curso, quis focar também na questão das funções de um colaborador, já que a maioria dos cursos que fiz como aluno passava direto por essa etapa, como se na vida real fôssemos de cara assinar a autoria de uma novela. Para que isso aconteça algum dia, é preciso muitos anos de bons serviços prestados como colaborador, ou seja, escrever cenas de uma história que não é sua. Como a Ingrid também já tem experiência como autora-titular, nasceu o título “Da colaboração à autoria”. O curso tem sido um sucesso. Já formamos duas turmas e muitos alunos queriam continuar o aprendizado. Agora Ingrid vai ministrar uma nova turma sozinha e eu vou ministrar com ela o módulo 2 para os ex-alunos. O curso que só tinha 4 semanas de duração, agora terá 3 meses, o que comprova o êxito. É muito bom trocar experiências. Temos aprendido muito com os alunos também, além de fazer novos amigos.

Fábio Dias: Vítor, de noveleiro a roteirista de TV e teatro, que conselhos você dá para quem almeja seguir essa carreira?
Vitor de Oliveira: Perseverança, sobretudo. Nunca parar de estudar, ler, assistir a tudo o que puder e exercitar sempre.


QUALIDADE X AUDIÊNCIA
Rafael Barbosa: A discussão em torno de Qualidade X Audiência sempre rende bastante. E cada vez mais constante que a opinião da critica especializada e de internautas nas redes sociais sobre uma novela se oponha aos números obtidos no ibope pela mesma. Tivemos alguns bons exemplos recentemente de novelas tidas como ótimas com números pífios, e de outras fortemente criticadas e malhadas com números relevantes. O que e mais importante afinal, um bom numero no ibope ou o respeito e credibilidade junto a critica? Que peso dão a esses dois lados? 
Alcides Nogueira: Essa pergunta é muito complexa. Posso responder somente pela equipe que está criando Lady Marizete. Se possível, queremos qualidade com audiência. Mas, para todos nós, e também para a Globo, a qualidade vem em primeiro lugar. Hoje há outras plataformas que atraem o público. Não podemos ignorar isso. Então, se o telespectador fica ligado em alguma atração, merece o melhor.


Vitor de Oliveira: Audiência e qualidade não são sinônimos. Muitas vezes, elas não andam juntas. Quando isso acontece é maravilhoso, mas quando um produto não vai bem de audiência, não significa que ele seja ruim. Há muitas variáveis envolvidas, como horário, problemas de produção e até mesmo o clima influencia (risos). Audiência é importante, claro, afinal, toda empresa precisa de resultados e como funcionários da empresa, temos que gerar lucro, mas ela não é o único fator que determina o sucesso de uma obra. Muitas vezes, um programa não vai bem de audiência, mas vira um sucesso de vendas ou um fenômeno de repercussão. Audiência determina o lucro comercial, mas o sucesso depende muito mais da repercussão, da lembrança que fica junto ao público. Quantas obras foram sucesso de audiência e ninguém se lembra? Sucesso é o que permanece na memória do público com carinho e saudade. Uma obra boa permanece. Uma obra descartável cai no esquecimento, independente de números de audiência.
                                              TEATRO

Rodrigo Ferraz: O Teatro é algo presente na vida de vocês como dramaturgo, por coincidência vocês escrevem algumas vezes sobre personagens reais, como é esse processo? E qual a sensação de ver uma peça de sua nos palcos?Alcides Nogueira: Comecei a escrever para teatro bem antes de me tornar tele dramaturgo. Amo a cena e tive o privilégio de contar com ótimos diretores, atores e atrizes sensacionais... Algumas peças fizeram grande sucesso, como Lua de Cetim, Feliz Ano Velho, Pólvora e Poesia etc... Ganhei os mais importantes prêmios... Escrevi 19 peças. Só uma continua inédita. O teatro representa o meu espaço no mundo, a minha maneira de estar vivo... Escrevi várias peças sobre escritores reais, como Florbela Espanca, James Joyce, Arthur Rimbaud, Gertrude Stein, sempre com a preocupação de interligar suas vidas e suas obras. A realidade entrelaçada com a ficção. Meu texto teatral é delirante, repleto de referências... Gosto da inter textualidade. Isso acontece até mesmo quando crio meus próprios personagens. É o meu universo.


Vitor de Oliveira: Mesmo quando escrevemos ou nos inspiramos em fatos e personagens reais, o componente ficcional é fundamental, do contrário seria um documentário. Como dramaturgo em início de carreira, já posso dizer que meu estilo não é hermético, tampouco conceitual. Assim como na tevê, meu objetivo é comunicar com o público de maneira direta e emocional. Quanto a sensação de ver uma obra nos palcos, ainda passo por uma adrenalina incrível na estreia de uma peça ou até mesmo em uma leitura dramática. É inevitável o medo de que tudo dê errado, mas com a resposta positiva do público, a gente vai relaxando. É muito mais adrenalina do que televisão, pois a plateia está presente, reagindo o tempo todo diante de nossos olhos.

De Alcides para Vitor
O Vitor de Oliveira é um autor incrivelmente talentoso, e que não se acomoda. Está sempre criando, lapidando seus textos e personagens. É antenado. Capta o que acontece no mundo e usa muito bem sua incrível memória. Admiro muitíssimo o Vitor que, além de tudo, é um amigo muito querido, uma pessoa especial para mim. Trabalhar com ele é sentir que há uma rede de segurança


De Vitor para Alcides
Olha, não canso de elogiar o Tide (como Alcides gosta de ser chamado) e não tem “puxassaquismo” nenhum nisso que eu vou falar, mas uma questão de fazer justiça com quem merece. Tide, além de um grande mestre da teledramaturgia e um homem de uma cultura ímpar, é um exemplo de ser humano. Com ele, eu aprendo muito a cada dia, não só o ofício da escrita, mas também recebo uma aula constante de generosidade, respeito, humildade, delicadeza e ética. Sua conduta é comovente!  O trabalho com ele flui às mil maravilhas. A equipe de “O astro” era incrível e a de “Lady Marizete” não fica atrás. Mario Teixeira, além de talentoso, também é um querido e os demais colaboradores, Tarcísio Lara Puiati, Paulo Lins e Jackie Vellego, são grandes companheiros de jornada. E o Tide sempre faz questão de manter o alto astral da equipe lá em cima o tempo todo. Damos muitas risadas juntos. Quero sempre trabalhar com ele, até quando ele me quiser (risos). Sou Tide Futebol Clube! Ele merece tudo o que conquistou e muito mais! Além de tudo, é amigo DE VERDADE e um grande presente que a vida me deu. Tide é raro! A Alcides Nogueira, minha gratidão eterna!


***


FÁBIO DIAS, é editor-chefe do "O Cabide Fala", formado em Administração de Empresas, desde criança adora novelas. Foi no final dos anos 90, ao ler a revista Contigo, passou a prestar atenção na audiência das novelas, hoje, se especializou no assunto, e têm uma coluna de audiência no site RD1, intitulada AUDITANDO. 
RAFAEL BARBOSA, mora no interior de São Paulo, amante das novelas, gosta de escrever, tanto que antes tinha um blog divertido intitulado Brincando de Escrever, seu sonho é ser roteirista, tanto que deseja fazer cursos na área. Recentemente, participou no blog Posso Contar Contigo? na seção Desafio Novela em Blog, onde foi colaborador da web novela do Leandro Brasil, intitulada “O que tiver de ser será”, entre outras.

RODRIGO FERRAZ se define como um jovem adulto ou um adulto jovem, amante do teatro, é o mais atuante dos colunistas do "O Cabide Fala", sempre noticiando, divulgando as peças em cartaz, conversando com os profissionais de teatro  através de sua coluna  DROPS.


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