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O legado de Benedito Ruy Barbosa: remakes recentes de suas obras-primas redimiram fala polêmica de anos atrás

Por Rafael Barbosa


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Na ocasião da festa de lançamento de Velho Chico, em 2016, sua última obra original para a TV, Benedito Ruy Barbosa deu uma declaração que gerou polêmica, a de que na sua nova novela não haveria "história de bicha". 

"Odeio história de bicha. Pode existir, pode aceitar, mas não pode transformar isso em aula para as crianças. Tenho dez netos, quatro bisnetos e tenho um puta orgulho porque são tudo macho pra cacete”, disse ele, sem fazer questão de disfarçar o que foi interpretado na época como uma clara crítica à presença cada vez maior de personagens LGBT...+ nas produções televisivas. 

Indo além, o dramaturgo disse ainda: "não sou contra, não acho errado. O que acho é que quando eu tenho na mão 80 milhões assistindo minha novela, tenho que ter responsabilidade com as pessoas que estão me assistindo." 

Mesmo com tais declarações, Benedito fez questão de deixar claro que não se considerava preconceituoso. 


As contradições do homem para além do autor


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Lembro-me que alguns nomes do elenco, da direção e até o próprio neto do autor, Bruno Luperi, responsável por roteirizar os capítulos da trama que estava para estrear, chegaram a se manifestar publicamente, contestando as falas polêmicas ou buscando contorná-las, alegando se tratar apenas da opinião de um homem de outro tempo. 

O diretor, Luiz Fernando Carvalho, foi mais incisivo ao repudiar, em nome de toda a equipe, tais manifestações. 

Na época senti um misto de raiva e tristeza por uma fala do tipo vir de um escritor consagrado e admirado. Perguntei-me como era possível alguém que demonstrava tamanha sensibilidade ao escrever diálogos tão bonitos e profundos; alguém que sempre se emocionava nas entrevistas e não tinha vergonha em admitir que chorava; que buscava com sua arte investigar a minúcia da natureza humana; que fala em encantamento e em encantados; como poderia alguém assim demonstrar tanto desprezo por outras possibilidades de existência? 


Releituras 


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Pois bem, nos anos seguintes, Luperi assumiu a responsabilidade de refazer duas das obras-primas do avô: Pantanal, originalmente exibida na Manchete em 1990, e Renascer, feita na Globo em 1993. 

No caso da primeira, ele reescreveu o personagem Zaqueu, que na versão original é vivido pelo ator João Alberto Pinheiro, um mordomo de cidade grande que ao se mudar para a região do pantanal acaba por se tornar peão, mas que por ser afeminado, sofre com perseguições e o escárnio dos outros peões da história. Neste caso, a homossexualidade ainda precisava de subterfúgios para ser retratada e acabou ficando restrita a um alívio cômico. 


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No remake de 2022, o mesmo personagem, agora Zaquieu, interpretado por Silvero Pereira, conserva suas principais características, mas ganha mais espaço e aprofundamento, com um enredo retratado sob a ótica da tolerância e do combate à homofobia. 

Ainda no remake de Pantanal, o próprio mocinho, o Jove vivido por Jesuita Barbosa, apesar de hétero, era um tipo sensível que experenciava uma masculinidade que causava estranhamento naquele contexto machista e truculento do campo, o que abriu possibilidades de outras discussões pertinentes sobre a temática de gênero e sexualidade. 


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Já na segunda versão de Renascer, Luperi foi ainda mais longe nas adaptações.

Buba — personagem que na versão de 1993 era considerada hermafrodita, termo pejorativo e em desuso que na época servia para se referir ao que hoje conhecemos como pessoas intersexo —, dessa vez foi representada como uma mulher transexual. 

Antes vivida por Maria Luísa Mendonça, a nova Buba foi interpretada por Gabriela Medeiros, jovem atriz e mulher trans assim como a personagem, que também ganhou uma releitura sensível, respeitosa e bastante corajosa. O texto não teve medo de mergulhar fundo na vivência trans, trazendo visibilidade e se colocando de maneira bem contundente contra a violência e preconceito. O entrecho em que Buba resgata a relação com a família que lhe rejeitou no passado é um dos mais bonitos da novela. 


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E a intersexualidade não foi deixada de lado. Luperi manteve o tema e o reservou para um outro desdobramento da história, envolvendo a personagem Teca, de Lívia Silva, que dá a luz a um bebê intersexo que recebe o nome de Cacau, trama que ganhou contornos poéticos. 

"A ideia não é tirar uma questão, mas sim adicionar novas camadas e trazer o assunto da diversidade, o assunto de gênero sob uma nova perspectiva que permita que mais discussões sejam feitas", comentou Luperi sobre as mudanças feitas no texto do avô  

Ainda em Renascer, uma personagem que na versão original era um homem, no remake passou a ser mulher, a Zinha Jupará, vivida por Samantha Jones, que segue uma bela jornada rumo à aceitação do seu desejo e afeto por mulheres e que termina por se aceitar lésbica. 


Legado: de avô para neto


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Ao que parece, Benedito assistiu e aprovou as novas versões de Pantanal e Renascer.  

Considerando que ele sempre foi um autor apegado às suas obras, zeloso delas, a ponto de ir às lágrimas ao falar delas e de só confiar às filhas e ao neto as adaptações, gosto de imaginar que essas mudanças todas realizadas nos dois remakes passaram por ele e que, à sua maneira, no auge dos seus mais de 80 anos, ele compreendeu a importância e a enorme contribuição delas. 

Assim, ao transmitir seu legado para o neto — que recebeu a dádiva de herdar o talento e a vocação do avô —, tal como algumas das sagas que contou em suas tramas, de alguma forma Benedito se redime de suas contradições, das falas infelizes, e ressignifica a própria arte. 

A sua partida deixa um enorme vazio na teledramaturgia, como bem pontuou um dos atores mais constantes de suas novelas, o também seu amigo Antônio Fagundes, mas o legado permanece, seja através das obras que podem ser revistas sempre e que seguirão vivas na memória do público ou da arte de seu neto, autor que parece conservar o olhar sensível do avô, estando atento às mudanças da sociedade. 


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Autor: Rafael Barbosa

Do interior de São Paulo, Rafael é formado em Jornalismo pela Unoeste (Universidade do Oeste Paulista) de Presidente Prudente. Atualmente vive no Paraná. Tem paixão pela teledramaturgia, sobretudo pelas novelas que cresceu assistindo.  




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