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As lições da turma da Mônica sobre o difícil processo de crescer

Por Fábio Leonardo Brito


Em 2019, quando assisti Turma da Mônica: Laços, filme de Daniel Rezende, saí arrebatado. Ainda não tinha lido a graphic novel escrita por Vitor e Lu Cafaggi e produzida pela Maurício de Sousa Produções, que serviu de base para o filme. Mas sempre fui um fã de tudo que era feito por aqueles estúdios. Afinal, aprendi a ler com revistinhas da Mônica e companhia. 

O longa-metragem, conforme lembro e reassisti há algumas semanas, era tudo aquilo que eu poderia esperar: apaixonante, tanto pelas situações herdadas dos quadrinhos, quanto pelo carisma de seu elenco, notadamente pelo Cebolinha de Kevin Vechiatto, que, para mim, quase rendeu à produção o título moral de “Turma do Cebolinha”.


Retornei ao cinema no finalzinho de 2021 para assistir sua continuação, Turma da Mônica: Lições, igualmente baseada em outra graphic novel da mesma dupla de Laços. Fui bastante empolgado, mas achando impossível que algo superasse em emoção o primeiro e emblemático filme. Como eu estava enganado! 

Lições conseguiu mexer ainda mais com os meus sentimentos, trazendo à tona um cem número não só de referências infantis quanto de sensações universais, capazes de levar à conclusão de que boa dramaturgia não tem idade.


Aqui, mais uma vez, o excelente elenco e a direção afiadíssima se conectam com o roteiro de Thiago Dottori, aliado na escrita a Mariana Zatz, que propõem o Bairro do Limoeiro como uma espécie de microcosmo atemporal. As ruas, algumas vezes mostradas em panorâmica, como parte de uma grande cidade (a selva de pedra aparece rapidamente ao fundo), têm qualquer coisa de oníricas, com um quê de cidade grande dos anos 1950, onde era possível que crianças brincassem do lado de fora sem preocupação. 


Os figurinos e decoração das casas, incluindo os telefones fixos, indicam, por sua vez, um universo de referências dos anos 1990 (a propósito, a fase em que o pequeno autor desse texto foi apresentado à Turma da Mônica). Já a linguagem é profundamente contemporânea: rápida, dinâmica e com as gírias do nosso tempo.


Nesse filme, a turminha é pré-adolescente e ensaia a pecinha Romeu e Julieta – um arco clássico para fãs dos antigos gibizões. Nesse processo, começam a perceber as dores e delícias de crescer. 


No ambiente escolar, os conflitos de infância encontram-se com algumas necessidades de enfrentar novos desafios e construir novos laços. Daí emergem as lições de vida: o processo de crescimento não precisa ser o de abandono do que efetivamente somos. Assim, ao mesmo tempo em que Kevin Vechiatto segue brilhando na interpretação do nosso troca-letras favorito (agora em busca de uma fonoaudióloga por encaminhamento dos pais), os três demais personagens da turma possuem arcos dramáticos muito consistentes. 



Gabriel Moreira enternece com um Cascão que praticamente filosofa diante de seu maior medo, a água. Laura Rauseo, que, no primeiro filme, ainda não tinha mostrado a que veio, é o puro “suco” do que eu sempre esperei da Magali: uma comilona que apaixona por ser, ao mesmo tempo, egoísta com comida e generosa com todo o resto. Já Giulia Benite, justifica, finalmente, o título “Turma da Mônica” dado à película: é, de fato, a heroína, o guião da trama, e, sem dúvidas, a que mais traz para ela o arco dramático sobre o crescimento e as portas de entrada do mundo da adolescência.


Nesse limbo da vida que é a fase de mudanças do corpo e dos modos de pensar, Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão encontram outros personagens da turminha, cada um deles acrescentando uma graça nova ao já tão divertido quarteto. A apresentação de Marina, Do Contra (de longe, meu favorito dentre os que agora entraram) e Nimbus me lembrou mesmo a fase em que esses personagens ingressaram nos quadrinhos, trazendo ao público a sensação de familiaridade, como se eles sempre tivessem estado ali. Dudu e Humberto são um sopro de “raiz” naquele universo, ao mesmo tempo em que Milena, uma das últimas personagens criadas, é nossa representação do que há de mais novo no mundo de seu Maurício de Sousa. Já o Franjinha é o que sempre esperamos dele: a criança que nos faz mergulhar na ideia de que seriam possíveis algumas invenções impossíveis.


Por sua vez, o elenco adulto está mais encantador do que nunca. Mônica Iozzi e Paulo Vilhena seguem destacando-se, respectivamente, como Luísa, mãe da Mônica, e Cebola, pai do Cebolinha. Nesse filme, com maior participação dos pais no arco dramático dos quatro protagonistas, esses atores parecem mais à vontade. 


O grande charme, no entanto, ficou por conta dos adultos mais jovens, vividos por Isabelle Drummond, Gustavo Merighi, Camila Brandão e Fernando Mais, respectivamente como Tina, Rolo, Pipa e Zecão, cumprindo no filme a função de mentores, apresentando à protagonista Mônica o caminho para resolução de seu conflito – função que, em Laços, o Louco de Rodrigo Santoro desempenhou para Cebolinha (ou Cenourinha, como ele mesmo chamaria). Destaco o carisma natural de Isabelle e o talento notado a quilômetros de Merighi, que trouxeram com seus personagens uma visão positiva e possível do “ser grande”. 


Por fim, e não menos importante, temos a participação luxuosa de Malu Mader como a professora da Mônica, outra responsável por dar lições essenciais para essas pequenas borboletas que estão na fase de entrar no casulo e passar pela grande metamorfose da vida.


Para um adulto relutante em crescer por completo, como eu, Turma da Mônica: Lições significou um recado importante para tempos tão sombrios e amargos como os que vivemos. É onírico sem ser escapista. É, talvez, um tipo de fábula contemporânea que precisamos para mostrar que aquele mundo, cheio de cor, ainda é muito possível.


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Autor: Fábio Leonardo Brito 

Dramaturgo e professor universitário de História. Mora em Teresina (PI). Tem interesses em temas ligados a cinema, música, comportamentos juvenis, teledramaturgia e cultura em geral

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