sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Sangue Bom: Uma reflexão sobre suas protagonistas


Embora sangue Bom tenha conseguido elevar a audiência do horário, os números não são nada incríveis, longe disso, porém é inegável que se trata de uma ótima novela, afinal tem um texto brilhante, personagens bem construídos, e uma boa história que consegue mesclar o humor, drama, romance e crítica social de forma competente. Na internet a trama tem tido uma boa repercussão, principalmente no que se refere a suas protagonistas, – Giane, Malu e principalmente Amora – que têm provocado várias discussões, e é sobre elas que este post propõe falar. 

Antes de mais nada, vale dizer que Isabelle Drummond (Giane), Fernanda Vasconcellos (Malu) e Sophie Charlotte (Amora) estão arrasando em seus respectivos papéis. Em Sangue Bom, os autores apostam em personagens ricos e extremamente complexos, fora de padrões e maniqueísmos, e essas “protagonistas” não fogem a regra, embora diferentes, todas são muito bem construídas, cada qual com suas características. A princípio, entre elas, não existia a “mocinha” ou “vilã”, e sim três personagens com conflitos, qualidades e defeitos, transitando em universos diferentes. Talvez essa falta de definição afaste parte do público que sente a necessidade de identificar quem é quem, pra quem deve torcer ou quem deve odiar. Malu e Giane têm maior empatia, já que estão mais próximas daquilo que se espera de uma boa heroína, e é interessante a transformação que ambas já apresentaram até agora em suas trajetórias. Quando o assunto é Amora, a coisa é mais complicada. 

Giane sempre foi um moleque, marrenta que só ela, mas muito boa gente. Ela nunca teve coragem de expor seus sentimentos, sempre teve baixa auto-estima, e escondia atrás da imagem de durona, uma menina frágil e insegura, apaixonada pelo melhor amigo. Com isso ela sempre descontou suas frustrações nos outros, distribuindo patada pra todo mundo. Giane foi se modificando com o tempo, por dentro e por fora, a principio fez isso por Bento (Marco Pigossi), mas depois por ela mesma. A Giane de hoje continua desbocada e durona, mas agora deixou aflorar sua feminilidade e está mais madura, desarmada e segura de si. 

Já Malu sempre foi considerada por muitos, a mocinha “perfeitinha demais”, porém, levando em conta a complexidade da historia, essa se mostra uma definição simplista. Malu é ética, romântica, altruísta, idealista e cheia de outras virtudes, mas também é cheia de conflitos, fragilidades e inseguranças. Sempre esteve claro a mágoa guardada pela mãe e uma pontinha de inveja pela irmã adotiva e, além disso, ela nunca foi totalmente passiva e ingênua, sempre desafiou a mãe para defender a avó e os irmãos, e sempre enfrentou Amora, aliás, desde o inicio ela vem tentando atingir a it-irmã, com seu namoro fake com Bento anunciado na mídia, por exemplo. Com o desenrolar da trama, Malu foi se tornando mais incisiva em sua guerra contra Amora, aprendendo a externar seus sentimentos e brigar pelo que quer. Nos últimos capítulos ela vem transbordado ódio e rancor na sua gana em acabar com rival, depois de tudo que esta lhe fez. Tudo isso fez de Malu uma personagem interessantíssima e cheio de possibilidades. O discurso pregado pela personagem no inicio, que chegou a incomodar alguns, nada mais é o que a novela pretende passar, ou seja, contrapor o “ser” e o “ter”, Malu foi porta-voz dessa discussão, assim como Bento e outros.  

E chegamos a Amora, que é das três protagonistas, a que gera mais polêmica e é em torno dela que a história gira, portanto, a “grande” protagonista da trama. Por ir contra tudo o que se espera de uma heroína, Amora sofre uma grande rejeição por parte do público, por outro lado tem uma torcida fervorosa que a defende ferrenhamente. Amora sempre teve um pé na vilania, já que desde o inicio se mostra uma garota arrogante, fútil, egoísta e com um sério desvio de caráter, mas muito disso era justificado: Em um passado traumático, Amora foi uma vítima da vida, já que foi menina de rua e "descalça", esse passado lhe deixou marcas profundas que ainda não foram cicatrizadas. Após ser adotada pela a atriz Bárbara Ellen (Giulia Gam), Amora acabou tendo uma formação totalmente deturpada, adquirindo valores distorcidos, onde imagem, fama e dinheiro valem mais que qualquer coisa. Por isso, agora famosa e refém da mídia, Amora voltou a ser vítima, só que do próprio meio em que vive e no qual aprendeu a sobreviver com as armas que lhe cabem, sufocando os sentimentos e acreditando piamente que isso lhe basta para ser feliz e compensa os traumas. Mas ao se confrontar com o passado e seu grande amor de infância, ficou claro o vazio que Amora sentia, e que no fundo ela ainda não era feliz. Até então, ela era o que podemos chamar de “anti-heroína” ou “heroína com ares de vilã”, um personagem incrível, humano, e no qual, apesar das atitudes incorretas, poderíamos torcer, ou ao menos entender. 

  Mas apesar de tudo isso, ao contrário das outras duas, Amora foi pela contramão, não passou por nenhuma modificação positiva ao longo da história, muito pelo contrário, teve seus defeitos ampliados e mergulhou de vez na vilania. Amora passou a desempenhar o papel da grande vilã da história, deixando Fabinho (Humberto Carrão), o vilão de fato, comendo poeira. Diante disso fica a sensação de que aquela personagem controversa, com erros até justificáveis, saiu de cena para dar lugar a uma Amora perversa, manipuladora e capaz de jogar sujo para conseguir o que quer, sem um pingo de compaixão por quem quer que seja, se importando apenas com Bento e ela mesma. Nem o único sentimento genuinamente bom que Amora tem por alguém, que é o amor por Bento, foi capaz de modificá-la, então como se dará essa redenção? Talvez através do reencontro com a irmã que a abandonou, Simone (Andréia Horta), recém chegada à trama, que sem dúvida irá remexer com as feridas mais profundas de Amora, feridas essas que não justificam o que ela fez e faz, mas ajudam a explicar o que ela se tornou.


Essas protagonistas e a maioria esmagadora de personagens nessa novela requerem uma leitura profunda, e é instigante observar os caminhos que elas vão seguindo e imaginar o que está reservado para elas: Amora pagará pelo que fez? Conseguirá ela se redimir e tornar-se uma pessoa melhor? O que o futuro reserva para Giane? E para Malu? Aonde dará a guerra de Malu contra a it-irmã? Quem ficará com Bento? Essas e outras perguntas só serão respondidas nos próximos capítulos de Sangue Bom que vai ao ar até o inicio de novembro. Os autores podem não ter acertado em cheio na criação desses personagens, pois tanta complexidade acaba afastando parte do público – o que pode ser um fator para baixa audiência – mas sem dúvida é mérito deles terem construído tipos tão interessantes, densos e complicados como só o ser humano sabe ser, inseridos num universo rico e propondo uma série de reflexões. Pois bem, vamos acompanhando. 


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