terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O Cabide Fala com exclusividade entrevista GLORIA PEREZ, confira!


Por Equipe O Cabide Fala

Com muita honra, finalmente entrevistamos a maior novelista do país: GLORIA PEREZ. A autora que está atualmente com seu seriado Dupla Identidade no ar, nos concedeu parte do seu tempo para responder detalhadamente cada dúvida e curiosidade de nossa equipe. Glória falou sobre: o seriado, projetos futuros, de seu processo de criação, escalação de elenco, sobre as leis brasileiras e muito mais! Ah, a entrevista ainda contou com a participação especial da autora Renata Dias Gomes, confira!!!

Fábio Dias: Me surpreendeu muito você deixar praticamente claro à polícia a identidade do serial killer antes do meio da temporada. Por que escolheu esse caminho no roteiro, em detrimento de deixar esse gancho para o final?
Foge do lugar comum. E o que eu queria mostrar, na verdade, é o jogo entre o serial killer e os policiais. Na história dos serial killers reais o que mais impressiona a gente é a maneira como eles conseguem construir uma máscara de normalidade para conviver socialmente, a capacidade de manipulação e o gosto por desafiar a polícia, dobrando sempre a aposta. Aliás, serial killers só são presos casualmente ou  por essa exposição. Mesmo assim, depois de muitos e muitos anos de atuação.
Fábio Dias: Ted Bundy foi o serial killer que mais te inspirou para criar o Edu, algum outro te chama atenção para uma próxima temporada? 
Seria interessante, por exemplo, mostrar uma mulher, ou então um desses serial killers classificados como “missionários”: aqueles que se dedicam a eliminar uma determinada classe de pessoas da face da terra: taxistas, gays, prostitutas, enfim... a diversidade é grande.


Fábio Dias: A segunda temporada da série está garantida? O que já imagina para uma sequência? Mudarão todos os personagens ou somente o serial killer? O que pode adiantar?
Querer todos querem, por isso que a ordem das novelas foi alterada e depois do Joao Emanuel virá a Maria Adelaide: ainda que não vá ser  eu a escrever, teria de acompanhar.  Mas ainda não se bateu o martelo: existem problemas práticos a serem resolvidos. Vamos esperar.
Fábio Dias: Para quando são seus próximos projetos? Já têm uma previsão para uma nova novela e a minissérie *“Perigosa”? 
Estou tirando umas ferias,  é hora de arejar a mente. A gente precisa disso quando termina um trabalho, para voltar renovada e pronta para novas ideias.  Na volta, começo a mergulhar na pesquisa de “Perigosa”.  Depois, novela. A previsão  é que entre depois de Maria Adelaide.

*“Perigosa”, conta a vida da Bibi Perigosa, ex-mulher do Barão do pó da Rocinha. A pedido de Gloria, a Globo comprou os direitos do livro no final de 2012.
Raul Santos: Dupla Identidade está sendo um sucesso de crítica e mantém até uma audiência alta para um horário tão ingrato. Como foi a experiência de escrever sobre um serial killer e uma história de suspense pela primeira vez? Pretende trabalhar com o formato de série ou o gênero serial killer, novamente?
Sempre gostei muito do gênero policial e do suspense psicológico, tanto na literatura quanto  no cinema e nas séries. Não tenho planos imediatos para falar de serial killers de novo, mas porque não? quanto às séries, claro que tenho muitas  outras em mente.


Com Débora Falabella, Mauro Mendonça Filho e Bruno Gagliasso no lançamento de Dupla Identidade 
Raul Santos: Glória, na televisão americana, temos várias séries com este tema. Qual o maior diferencial que Dupla Identidade tem?
A dramaturgia americana explorou sempre e muito a figura do serial killer: lá os casos reais  são muito divulgados e a figura do serial killer está no imaginário popular.  A policia costuma avisar a população, para que se preserve,  quando identifica que um deles está em ação, e há toda uma mobilização da sociedade em torno do assunto. O FBI criou um departamento só para estudar a maneira como a mente deles funciona, e  é esse trabalho, do caçador de mentes, que a personagem Vera mostra em Dupla Identidade. 
Serial killers tem características que são comuns a todos eles: é como escrever sobre cowboys: há traços característicos dos quais não se pode fugir. Serial killers organizados, como o Edu, são insuspeitos, desafiam a policia ao jogo do gato e rato, colecionam troféus, lembranças dos crimes que cometem, guardam recortes dos jornais que falam sobre eles, e elaboram uma “assinatura”, a partir da maneira como executam seu ataque e como deixam arrumada a cena do crime. É essa assinatura que cabe ao caçador de mentes desvendar. De modo que o diferencial, quando se escreve sobre eles, estará  essencialmente na trama. Dupla Identidade inova quando não procura justificar o comportamento deles através de um trauma, como em Dexter, em Criminal Minds, por exemplo: Edu é assim e ponto. A série tira o espectador da zona de conforto que essas justificativas oferecem – é muito mais assustador admitir que algumas pessoas simplesmente nascem assim.


Raul Santos: O protagonista Bruno Gagliasso está recebendo varias críticas positivas por sua interpretação e, particularmente acho a melhor atuação do ator até então. Houve algum outro ator cogitado para o papel? E qual o diferencial dessa  parceria de vocês, com as anteriores?
Bruno é um ator fascinante. Desses que se entrega  sem medo às emoções alheias, por mais estranhas que elas lhe pareçam. Ele foi a primeira pessoa que pensei para o papel, depois comecei a acha-lo muito jovem ainda. Ele insistiu num teste e quando veio, vestiu a personagem de uma tal maneira, que tinha a idade certa, a dose de juventude e de maturidade certa. Com o Bruno não tem erro: a gente se entende, é cumplicidade total.
Rodrigo Ferraz: Dupla Identidade tem uma mescla de atores com quem você já trabalhou como Bruno Gagliasso, Débora Falabella, Marcello Novaes e Renata Rocha... Mas também conta com novidades, como é o seu processo na escolha de seu elenco?
Não penso no ator quando escrevo a personagem. Pra mim, começar pelo ator limitaria a criação da personagem às características da pessoa dele. Construo a criatura e depois sim, penso no ator ou atriz que lhe daria vida. Tem atores, como o Bruno, como a Deborah, que você já conhece,  sabe que compreendem as linhas e entrelinhas do seu texto. Outros você descobre nos filmes, nos teatros, nos testes.


Rodrigo Ferraz: Antes da serie você havia feito um blog e tem um documentário também no site da serie, o tema sempre te motivou?
Essa é uma ideia antiga: como  faço sempre uma pesquisa muito extensa dos temas que vou tratar, comecei a tentar organizar essa pesquisa, ou parte dela, num arquivo. Até para que possa servir a outras pessoas que se interessem pelos temas ou queiram escrever sobre ele. No meu blog pessoal criei uma página onde comecei a guardar alguma coisa de pesquisas anteriores. Dá trabalho juntar esse material depois que você termina o projeto. Entao, em Dupla Identidade, resolvi começar organizando. Os trabalhos posteriores também vão ter seu blog.
Rodrigo Ferraz: A principio Amora Mautner que dirigiria a serie, a concepção dela nasceu de vocês duas? Como foi que escolheu Mauro Mendonça Filho para assumir as funções de núcleo da trama?
Amora saiu porque estava comprometida com a novela do Joao Emanuel e não daria tempo de gravar a serie na data prevista. Achei que o Mauro seria a escolha perfeita - e foi. Minha ideia sempre foi que a série buscasse uma estética  internacional e mostrasse uma policia brasileira sem traços de caricatura.  O Mauro assumiu isso e enriqueceu ainda mais, trazendo o Andreas Kisser para a trilha sonora, fugindo do cartão postal do Rio de Janeiro e incorporando o Rene Sampaio ao projeto.
Rafael Barbosa: Além da psicopatia, Dupla Identidade apresenta outro tema: o pouco conhecido transtorno de “Boderline” através da personagem Ray, vivida por Débora Falabella. Quando e porque decidiu inserir também esse tema no seriado? Já tinha pensado em abordar o assunto antes, em alguma novela?
Sim, e penso que ainda vou abordar em algum outro trabalho. É uma condição muito dolorosa, para quem tem o transtorno e para quem convive com os portadores dele. O tema merece um olhar mais aprofundado, que não cabia na série. A interpretação da Debora é magistral: poderia escrever uma minissérie inteira só sobre a sua Ray.
Inseri o tema porque o border é a vítima sob medida para um psicopata. Psicopatas são manipuladores, e a personalidade fluida dos borders, o fato de que busquem sua identidade no outro, faz com que se entreguem completa e cegamente às paixões. Nada mais conveniente para alguém como Edu.



Rafael Barbosa: Já havia abordado a psicopatia em “Caminho das Índias” através da vilã Ivone vivida por Letícia Sabatella e se inspirou no livro “Mentes Perigosas” de Ana Beatriz Barbosa para desenvolvê-la.  Me lembro das cenas de Ivone em paralelo com as de Dr. Castanho, personagem de Stênio Garcia, que explicava sobre o funcionamento da mente de um psicopata. Acho que eu nunca tinha tido tanta informação quanto ao assunto e costumava ver com bastante interesse essas cenas, acredito que isso foi o que aconteceu com grande parte do público. Agora, você volta a abordar a psicopatia em “Dupla identidade” por meio dos “serial killers”. Apesar de Ivone não ser uma assassina em série tal como Edu, de acordo com suas pesquisas em torno do assunto para a novela e para o seriado, quais são as principais semelhanças e diferenças entre eles?
A Yvone não estava no projeto original de Caminho das Indias. Eu ia tratar da esquizofrenia. Como faço em todos os meus trabalhos, fui às clinicas conversar diretamente com os doentes mentais, saber deles como se sentiam no mundo, o que queriam dizer às outras pessoas. E havia uma unanimidade: todos eles se sentiam muito ofendidos quando algum criminoso cometia uma atrocidade e os jornais estampavam manchetes dizendo que eram loucos. Eles já sofriam preconceito demais e tinham de carregar mais esse. Por isso criei a Yvone, uma psicopata, para mostrar e sublinhar a diferença entre psicopatia e loucura.
Rafael Barbosa: Imagino que eles possuam graus diferentes de psicopatia, se sim, o que determina a forma com que o transtorno se manifesta nos indivíduos? Quais são os fatores agravantes e atenuantes que determinam esse grau de manifestação? Recorreu mais uma vez ao livro “Mentes Perigosas”? E por fim, acredita que para além do entretenimento, a novela e o seriado conseguem ser eficientes no que diz respeito a levar informações para o público e deixá-los em alerta quando a essas pessoas que podemos encontrar por aí?
Claro que existem graus diferentes de psicopatia. O psicopata se caracteriza por esse desligamento emocional, essa incapacidade de sentir empatia. Mas ao lado disso estão as características da personalidade de cada um. Se ele é ambicioso pode fazer carreira no mundo politico, no mundo empresarial,  se é preguiçoso e sem ambição se contentará em viver encostado em alguém, em dar pequenos golpes,  se tem uma natureza violenta e sanguinária poderá vir a ser um serial killer.  A maioria dos psicopatas não mata ninguém, ainda que provoque devastações nas vidas à sua volta.
Ao contrario do que faço nos meus outros trabalhos, Dupla Identidade não teve pesquisa de campo. Claro. Só visitei o corredor da morte através de documentários que traziam entrevistas com os serial killers reais. Precisava ouvi-los falando para poder compor o Edu. Fiz uma edição do que havia de mais importante naquelas entrevistas e compartilhei o DVD com atores, direção e produção. Livros, foram muitos: o do Robert Ressler, que foi o mais famoso dos caçadores de mentes do FBI  (Ressler foi consultor na serie Hannibal e no filme O silencio dos Inocentes). Li os  livros da Ilana Casoy, os que foram escritos pelos policiais e detetives que interrogaram Ted Bundy, o da Anne Rule (The Stranger Beside Me), que foi colega de trabalho dele, e muitos outros de pessoas que conviveram com serial killers reais, e podiam falar de como se comportavam no cotidiano, usando a “máscara de normalidade”.
Sobre a psicopatia,  o da Ana Beatriz, o do Robert Hare (criador da escala Hare, através da qual um psiquiatra pode diagnosticar a psicopatia), o da Martha Stout, psicóloga americana, e os trabalhos da Hilda Morana, autoridade em psiquiatria forense no Brasil.



Rafael Barbosa: Para escrever o seriado “Dupla Identidade”, desde as pesquisas, passando pelo desenvolvimento do protagonista até a elaboração dos episódios, o que deve exigir uma criatividade imensa por se tratar do gênero policial, com certeza você teve que estar totalmente mergulhada neste universo e imagino que deve ser difícil se desconectar da série mesmo quando não está escrevendo. Diante disso, apesar de sua vasta experiência, considerando o teor pesado do tema visto pelas cenas densas em que Edu comete seus crimes, os diálogos e enfim, como é que você consegue se desligar de toda esse aspecto pesado da série para se concentrar em outras atividades, é um processo difícil? Como se sente após escrever uma cena dessas em que Edu assassina sua vítima? Consegue visualizar vítimas reais ao escrever a cena? De que forma isso mexe com você?
Não faço nenhum vinculo com a realidade. Escrevo com o mesmo distanciamento com que assisto uma série do gênero. Como espectador. Aqui não há o mergulho de quando escrevo sobre o doente mental, por exemplo, sobre as mulheres traficadas, sobre as crianças desaparecidas. E só pode ser assim, tanto para quem escreve quanto para quem assiste ou lê historias policiais. Construir uma trama policial é tecer uma teia, elaborar um enigma, e isso exige que a emoção não interfira - é puramente intelectual. O espectador também, só vibra com o gênero porque o desvincula da realidade – uma coisa é assistir Hannibal, outra bem diferente é  pensar em Jeffrey Dhamer  o Hannibal da vida real. Muda tudo!
Júnior Bueno: Cada brasileiro é um pouco técnico de futebol e autor de novela. E com as redes sociais, existe uma comunicação maior do público com o autor. Enquanto alguns só elogiam, outros criticam. O saldo dessa interação é positivo ou negativo? Quais são as vantagens e as desvantagens?
Ouvir é sempre produtivo, mas é preciso saber ler, filtrar, diferenciar o que deve ser levado a serio e o que é simplesmente balburdia, vontade de agredir. Em Explode coração  tive uma experiência muito rica: foi a primeira novela interativa, escrevi dialogando, trocando ideias e ouvindo experiências das pessoas que viviam romances e construíam amizades sem nunca ter visto quem estava do outro lado da tela. Na época não era internet, era BBs ainda. Menos gente, e havia um encantamento – meu e deles - de participar e compartilhar essas novas possibilidades de conflitos humanos criados pelo avanço da tecnologia. Tentei reviver a experiência em Salve Jorge, mas o universo virtual  estava muito ampliado, o contexto era outro: não deu certo.

TWITTEIROS CONVIDADOS 
Ivan Gomes: Glória, o que você acha das leis brasileiras? Dos indultos dados aos presos, das pessoas condenadas que nem vão pra cadeia, cumprem regime aberto, dos recursos. Você  já pensou em abordar a fragilidade das leis em algum de seus trabalhos?
A lei penal brasileira é um incentivo ao crime. Enquanto cidadã, fiz minha parte com aquela campanha das assinaturas que encabecei em 1993. Naquela época tinham feito a Lei dos Crimes Hediondos que, na prática, era uma lista de crimes que deveriam ser levados a sério: ao invés de ter de cumprir apenas 1/6 da pena, quem cometesse crime hediondo tinha de cumprir a pena inteira. Só que matar pessoas não era considerado hediondo. Matar uma arara era crime inafiançável, porque ofendia o patrimônio, mas matar o cuidador da arara não dava em nada. A campanha das assinaturas, passando de mão em mão, porque na época não havia internet,  reuniu em três meses 1.300.000 assinaturas necessárias para fazer passar uma lei: e o homicídio qualificado (quando se mata com intenção de matar), foi introduzido nessa lista dos crimes hediondos. Hoje a coisa ficou mais frouxa: ao invés de ter de cumprir a pena inteira, cumpre-se apenas 2/3. Mas se não fosse a lei que resultou da campanha das assinaturas, Nardonis, Suzanne Richtofen e outros criminosos cruéis já estariam na rua há muitos anos!

Gustavo Camargo: Glória, sabemos que os autores de novela costumam alterar os rumos da trama durante sua exibição por conta de vários fatores, como aceitação do público ou interpretação dos atores. No caso de um seriado semanal, é possível ou viável a realização dessas mudanças? Você chegou a fazer alguma alteração no seriado Dupla Identidade após sua estreia?
Não, nenhuma alteração. A serie é uma obra fechada. Esse, aliás, é o grande barato e o grande desafio das novelas, novela é um grande diálogo com o público. As séries ou minisséries já não te permitem essa interação.

PARTICIPAÇÃO ESPECIAL RENATA DIAS GOMES:

RENATA DIAS GOMES: Gloria, você me passou algumas lições que lhe foram ensinadas pela minha avó. Como "está tudo em Balzac" e "emoção não se segura". E que lições você hoje, com trinta anos de carreira e consagrada com o Emmy, poderia passar a quem deseja escrever novelas?
Renatinha, sua avó sabia tudo! Balzac é realmente o grande mestre do folhetim, e a emoção a base de toda a narrativa do gênero. Temos aqui no Brasil a tendência a classificar a emoção como “brega”, e a tocar nela com luvas. Janete denunciava isso com muita clareza: o escritor não pode ter medo de tocar todas as cordas das emoções: seria como pianista que se recusa aos acordes mais altos, sem os quais não se complementa a melodia. Não é à toa que Nelson Rodrigues era fã da Janete.  Eu diria ainda – e essa também era uma característica da mestra de todos nos, que  quem escreve não pode ter medo da imaginação. Como não pode ter medo de ousar. Tendo sempre em mente que,  para inovar,  é preciso conhecer muito bem as regras do folhetim tradicional. Saber se movimentar nelas como se movimenta em casa.

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