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ANÁLISE: Dez setembros depois

Por Júnior Bueno



Antes de 2001, o dia 11/9 só não passava em branco para quem nele aniversariava. Depois da queda das Torres Gêmeas, em Nova York, na manhã daquele dia, o onze de setembro passou a ser um vulto que carrega em si uma gama imensa de significados: a dor, o medo, o desespero, o fanatismo, a crueldade. O atentado e os eventos que ele desencadeou moldaram os rumos deste século. A guerra e a paranóia acabaram por respingar em diversos aspectos na vida cotidiana das pessoas nesta década. De templos a aeroportos, os vestígios daquele setembro se fizeram notar, às vezes em silêncio, outras ruidosamente.



Se a produção cultural de uma era reflete a forma como o homem se interpreta, podemos dizer que a herança cultural do onze de setembro foi uma década marcada pelo fascínio do mundo islâmico, com suas belezas e horrores. Entre os livros mais vendidos nestes dez anos, destacam-se O livreiro de Cabul, da norueguesa Asne Seierstad e O caçador de pipas do afegão-americano Khaled Hosseini. O primeiro, uma história real, mostra o dia a dia de uma família no já arrasado Afeganistão, trazendo um panorama minucioso da vida doméstica dos cidadãos daquele país, onde se contrastam otimismo e miséria, tirania e delicadeza. O segundo, que originou um filme homônimo é um romance que tem como pano de fundo um país tomado pela intolerância e fanatismo do regime talibã. O interesse por desvelar o povo muçulmano para além do fanatismo encontrou eco em livros religiosos, biografias, tratados e até mesmo a autoajuda bebeu nesta fonte.



Os mistérios que cercam povos do Oriente ganharam cores até em telenovela. O clone de Glória Perez, já estava sendo gravada em Marrocos quando dos atentados e coincidentemente o Islamismo era um dos temas da novela. Entre enredos mirabolantes da trama global, o público se familiarizou com costumes e tradições daquela gente até então, pouco conhecida. A novela tornou-se um sucesso mundial, sendo exportada para mais de 90 países e gerando uma versão hispânica. Inshalá!

Outro traço cultural desta década é a paranóia americana em relação a imigrantes de qualquer origem. E o maior ícone dessa tendência é o agente antiterrorismo Jack Bauer, personagem de Kiefer Southerland na série 24 horas. O anti-herói, ao longo de sete temporadas fazia o diabo para salvar os Estados Unidos (e o resto do mundo se desse tempo) em apenas um dia. Adepto do lema “os fins justificam os meios” ele era capaz de matar e torturar sem piedade qualquer um que pudesse representar uma ameaça à paz americana. Os inimigos eram invariavelmente estrangeiros, sendo grande parte de origem islâmica. Aliás, os vilões com traços árabes estão para os filmes desta década como os frios russos estão para os filmes de ação dos anos 80.



Naturalmente esse medo acabou gerando uma onda de preconceito racial, que, naturalmente gerou um tsunami de protestos. Poucas vezes (pra não dizer nunca) um presidente americano foi tão impopular, quanto George W. Bush. Sua cruzada contra o terror acabou criando conflitos intermináveis no Iraque que cativou a inimizade de pessoas dos outros cantos do planeta. Uma das pedras no sapato de Bush foi o cineasta Michael Moore, que em 2004 lançou o documentário Fahrenheit 9/11, onde dissecou as causas e consequências dos atentados e levantando questões sobre quais seriam os reais motivos que levaram Bush a atacar o Iraque. A anti-guerra mexeu também com o mercado musical e vários artistas e bandas lançaram álbuns com canções inspiradas pelo trauma pós 11 de setembro. Um destaque desta safra é a banda de punk-rock Green Day com o elogiado American idiot, com letras de repudio à guerra e sobre soldados morrendo em campo, longe de suas famílias.



No cinema, os estúdios trataram de encontrar meios para abordar o assunto, a começar por apagar digitalmente as imagens das torres dos filmes que estavam para estrear. Depois, vieram os filmes que recriavam a tragédia e exaltavam os heróis anônimos. As torres gêmeas narrava o esforço de policiais e cidadãos comuns para tentar salvar pessoas antes no momento do desabamento. E Voo United 93 mostrou o drama vivido pelos passageiros do avião sequestrado por terroristas e abatido pelos próprios passageiros. Passado o trauma inicial, logo surgiu também uma leva de filmes de suspense ambientado em aviões, alguns beirando ao mau gosto.

Curiosamente, Osama Bin Laden, responsável pelos atentados, e personagem central deste enredo não virou tema de filme nem teve sua vida romanceada, no máximo uma biografia feita às pressas sobre sua família e lançada logo após o atentado. O vilão, sempre um personagem interessante da ficção, na vida real causou calafrios e lembranças ruins. Até mesmo a sua morte, que poderia culminar no clímax de um roteiro de Hollywood, foi a mais discreta possível. Um desfecho silencioso pra quem entrou para a História explodindo prédios.

E você, onde estava naquela terça feira de cinzas?

Júnior Bueno

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