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“Por amor” pelos olhos de hoje

Por Rafael Barbosa


A atual reprise do clássico “Por Amor” no “Vale a pena ver de novo” está bombando. Na última semana, foi exibida a sequência antológica em que a vilã, Branca Letícia de Barros Motta (Susana Vieira), enfrenta Isabel (Cássia Kiss), a esperta amante de seu marido. A novela foi parar no topo dos assuntos mais comentados da rede. O trabalho magistral das atrizes e o texto brilhante foram devidamente exaltados. 

Muito se questionou essa reapresentação, pelo número de reprises anteriores, sendo que fazia pouco mais de um ano desde a última, em dezembro de 2017 no Viva. Mas a escolha acabou se revelando das mais acertadas. 

A novela apresenta a excelência da dramaturgia de Manoel Carlos, que estava no auge, traz um elenco primoroso, é bem dirigida e o enredo é instigante o suficiente para prender a atenção, emocionar e gerar debate em qualquer tempo. Não deu outra, pela quinta vez, “Por amor” é sucesso e vem alcançando excelentes índices de audiência. 


Novos olhares
O sucesso dessa nova reprise é simbólico porque, além de mostrar a força da telenovela em tempos em que se questiona a qualidade e criatividade das tramas, revela que o distanciamento promovido pelos espaços de tempo entre uma exibição e outra, altera e renova as diversas percepções do público sobre os temas, conflitos e personagens que a história apresenta. 

Quando “Por amor” foi ao ar pela primeira vez, eu tinha apenas quatro anos. A trama faz parte das minhas lembranças mais remotas. Depois disso, vieram as reprises, mas, por um motivo ou outro, nunca consegui acompanhar nenhuma integralmente. Até então, além de pesquisas a respeito, só tinha visto cenas, sequências e capítulos isolados. Sendo assim, a reprise atual tem aquele sabor de novidade para mim e têm sido uma experiência muito prazerosa acompanha-la. É possível se surpreender e se encantar a cada capítulo. 

Sinto que esse sentimento é compartilhado, tanto por quem já viu antes ou por quem, como eu, está vendo pela primeira vez. Diante disso, nas linhas abaixo, busco apontar algumas das novas percepções que a reprise possibilita, que são minhas, mas que pelo que tenho visto, em especial na internet, também são as de muita gente. 


O mundo mudou mesmo, e que bom!
Em “Por amor”, em quase todo capítulo podemos ver personagens femininas discorrerem sobre a falta de fidelidade dos homens e sobre o papel submisso da mulher, encarando isso como “normal”. Ainda que as mulheres do universo ficcional de Maneco sejam as mais fortes, há um conformismo por parte delas em relação à essas questões. 

A sociedade retratada na novela evidencia o machismo da época na qual a história se passa, em que o homem ocupa um lugar de privilégio e isso não é questionado, pelo menos não como é hoje. A grande maioria dos personagens, masculinos e femininos, em maior ou menor grau, são machistas. O enredo não se posiciona claramente contra ou a favor do machismo. Sem julgamento de valor, o texto apenas se concentra em fazer um retrato da sociedade, o que inclui esse tipo de mentalidade comum naquele tempo. 

É preciso ver a novela com os olhos do passado. É um exercício interessante para entender o quanto isso era naturalizado e refletir sobre o quanto os comportamentos e pensamentos se modificam ao longo do tempo. Algumas cenas, diálogos e até alguns perfis de personagens são encarados de outra maneira nos dias de hoje. Para ilustrar isso, pode-se utilizar como exemplo o casal Marcelo (Fábio Assunção) e Eduarda (Gabriela Duarte). 


Hoje, o público ainda pediria a morte de Eduarda?
Sabemos que Eduarda foi duramente rejeitada pelo público na exibição original de “Por amor”, tanto que exigiram a sua morte na internet. Confesso que pelo que me lembrava e por algumas das cenas e capítulos isolados que vi da novela, sempre compreendi essa rejeição, porque realmente Eduarda faz questão de ser insuportável em vários momentos da trama. Mas agora, acompanhando o todo, fica claro que Eduarda foi injustiçada e que é uma das grandes personagens da trama. 

Além de muito bem interpretada por Gabriela, que se entrega intensamente às cenas, Eduarda é muito bem construída. De menina mimada, insegura e pedante ela amadurece diante dos nossos olhos até se tornar uma mulher forte, decidida e corajosa, ainda com defeitos, mas disposta a revê-los. Me surpreendi ao ver que ela, apesar de certa fragilidade alardeada no início, é a única mulher na novela a questionar a naturalização da infidelidade masculina e os privilégios que são atribuídos aos homens. Ela desafia as estruturas. 

É bonito vê-la, mesmo ainda amando o marido, enfrentando todos, inclusive a mãe, que lhe aconselham a perdoar a traição de Marcelo e reatar o casamento, como se o que ele fez fosse apenas um deslize “completamente compreensível” pela condição de homem dele. Todos inclusive, chamam-na de “louca” e inflexível. É bonito vê-la defender o direito de se sentir ultrajada e de não aceitar ser tratada com nada menos do que amor e respeito. 

“Eu acredito que é possível mudar por amor. Eu mesma mudei por amor. Por amor à mim”, diz Eduarda em uma das cenas de reaproximação com Marcelo. Essa fala, dita por uma personagem feminina que tem uma trajetória tão bem desenvolvida como a de Eduarda, tem um significado muito forte em meio ao machismo fortemente presente no universo da novela. 


O mocinho odiado
Se por um lado é possível se encantar e torcer por Eduarda, por outro, Marcelo chega a despertar repulsa. Eu sabia que ele era mimado e arrogante, mas vendo essa reprise, pude ver o quanto Marcelo é egoísta, mesquinho, grosseiro, agressivo, vaidoso e até cruel. É o que alguns chamam hoje de “boy lixo”. 

A relação dele, tanto com Eduarda como com Laura (Viviane Pasmanter), reúne várias características de um relacionamento abusivo. É incrível pensar que em 1997, o personagem não causou a mesma revolta no público, afinal, não foi a morte dele que foi exigida na internet. 

Não gosto muito das definições de “mocinho” e “vilão” em uma novela como essa, acho que os personagens muitas vezes transcendem essas categorias, mas Marcelo, tecnicamente o protagonista romântico, consegue ser mais odiável que a megera mor da trama, sua mãe, Branca Letícia. Apesar do trabalho competente de Fábio Assunção, Marcelo não desperta empatia alguma. Poderia haver um final alternativo no qual Eduarda terminasse só e feliz consigo mesma. 


Helena ou Eduarda: Quem é realmente a heroína da história?
A atual reprise de “Por amor” também permite novos pontos de vista sobre o gesto de Helena (Regina Duarte), que mais uma vez gerou uma grande discussão. A protagonista segue sento uma das melhores criações de Manoel Carlos, dada a dimensão humana com que foi construída, mas diante dessa Eduarda tão madura e tão dona de si mesma, fica ainda mais evidente a falha de Helena como mãe e mais difícil defende-la. 

O erro dela é anterior à troca dos bebês, com a sua incessante busca por proteger a filha de tudo e de todos. Helena é a responsável por toda a fragilidade de Eduarda no início. É ela quem sempre subestimou a força e a capacidade de lidar com adversidades da jovem. 

Helena persiste no erro quando ainda escolhe ocultar as coisas da filha, quando tenta amenizar o tamanho da ferida de Eduarda diante da traição de Marcelo, incentivando-a a voltar com ele para não sofrer a separação. Ela não consegue conceber que a filha cresceu e pode lidar com o sofrimento. Na mesma medida em que Eduarda se torna forte, Helena se afunda, refém de seus segredos e medos. Eduarda apresenta uma grandeza que Helena, apesar do sacrifício, não consegue ter. Se há uma heroína na novela, essa é Eduarda. 


As experiências se transformam
Há ainda outros pontos de “Por amor” que proporcionam novos olhares para história, como a figura de Laura que já chegou a ser exaltada pelo público, mas que vai na contramão de Eduarda, despertando muito mais desprezo e piedade do que qualquer outra coisa. Ou Lídia (Regina Braga), que com todos os defeitos, sendo inclusive chamada de chata por muitos, se mostra uma das personagens mais coerentes e verossímeis da trama, talvez melhor que Orestes (Paulo José). Questionável também a trama de Márcia (Maria Ceiça) e o marido racista que caberia um outro post. E na guerra entre Branca e Milena (Carolina Ferraz), apesar da crueldade, muitas vezes Branca é quem está com a razão. Milena as vezes é muito impulsiva, irresponsável, fora da realidade e acomodada. 

O sucesso de “Por amor”, em sua quinta reapresentação, confirma o poder que a telenovela tem de penetrar no imaginário do grande público e em todos os espaços, de revolucionar a memória e de ser, talvez, o retrato mais fiel da sociedade em suas diferentes épocas e seus diversos aspectos. A experiência de rever uma novela bem escrita, dirigida e interpretada pode ser transformadora. As emoções são outras, os olhares se modificam, mas o que não muda é o prazer de se ver uma boa novela.  

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